Roda América


Um tanto assim

Menina, preste atenção.
O que vês em tua mão
Nada mais é do que tua mão.
Esta sombra que projetas,
De animais e objetos
Não é mais do que tua mão
Imitando o que não é.

Menina, escute bem.
Se alguém lhe perguntar,
O tamanho do universo
Não responda “um tanto assim”
Com os braços bem abertos.
O infinito não tem fim,
Mas menina, teu braço sim.

Ai menina, se soubesses
Que em tua mão não cabe o mundo,
Não serias tão feliz,
Não farias o que eu fiz.
Não verias que teu sonho
É do tamanho do universo
E mais além de teu nariz.

Mas menina, pensando bem,
Se há alguém que necessita
Ser feliz e ir além,
Seria eu e não tu,
E agora sei quem ensina quem.

Menina, te faço um pedido
de apenas brincar contigo,
pra que as coisas feitas por mim
Sejam gigantes “um tanto assim”.

 

Feito para Rodrigo Pinto. Lembre daqueles tempos, meu velho)

 



Escrito por Ricardo Martins às 18h18
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Saco do céu

Ilha Grande, Rio de janeiro.

Em meio a uma estonteante lua cheia, agarro meu saco de dormir para passar a noite no píer de uma praia chamada “Saco do céu”, que não por nada tem este nome. Neste lugar isolado, o mar chega sorrateiramente através de um pequeno espaço entre o vão de Ilha Grande. Quando a noite cai, o céu se espelha tão claramente nas águas que o mar fica como uma bolsa de estrelas, ou um saco do céu.

Deito-me no píer e espreguiço longamente dos pés à cabeça, vendo minhas mãos refletidas no mar pela luz azulada da lua. Assim, distraído com o mundo que parece brincar comigo, fecho os olhos lentamente até dormir.

Acordo no meio da madrugada, com a torpeza de sentidos de quem desperta, distinguindo com dificuldade as imagens que rodeiam meus olhos. Deitado com a orelha apoiada na úmida madeira do píer, olho para um lado e vejo um céu estrelado, olho para o outro e vejo o mesmo. O mar negro reflete tão precisamente as estrelas, que mal sei o que é céu e o que é mar. Tentando me organizar em meio a essa confusão de sentidos, deito-me com a barriga para cima e fito o que finalmente descubro ser o céu.

Levanto-me totalmente, sentindo a brisa fresca do mar massageando meu corpo e brincando com meus cabelos. Sem pensar muito, tiro toda a roupa, estendo longamente os braços e me jogo no mar profundo, como quem inverte a gravidade e se atira no céu estrelado. Fico um certo tempo embaixo d’água, admirando as bolhas de minha respiração que sobem azuladas até explodir na superfície. Ao submergir, olho em todas as direções, do mar ao céu, e tudo o que vejo são estrelas.

Com as mãos em concha, junto um pouco de água e deixo uma única estrela refletindo naquele pedacinho.  Com as palmas levantadas, vejo uma estrela em minhas próprias mãos, escorrendo pelos dedos.

Em minha boca sinto um gosto salgado, não sei se de mar ou de lágrimas. Tanto faz.



Escrito por Ricardo Martins às 10h05
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A praia

Desde longe vejo o oceano. Ao contemplar tal paisagem, alguns param e respiram serenamente, para aproveitar o marasmo reflexivo das águas. Eu não... Sinto-me impelido a gritar feito um animal e correr de encontro com o mar, até que a onda bata fortemente em meu peito.


Com a mesma imprecisão entusiasmada de um virgem adolescente, tiro minha roupa enquanto corro pela areia, tropeçando enquanto tiro meu short e o jogo pra bem longe. Sinto a areia quente sob meus pés descalços enquanto avanço, até sentir os grãos cada vez mais úmidos e frios, quando finalmente a ponta de meus dedos encosta no último ponto em que a onda conseguiu chegar. Levanto meus olhos e contemplo o oceano, saudando mentalmente a este amigo imprevisível e turbilhonante, que se estende até além de meus olhos e minha compreensão.


Com apenas os calcanhares submersos, inclino-me suavemente e molho meus pulsos, ajustando minha temperatura ao novo ambiente. Levo as mãos molhadas até a nuca e deixo que um filete de água caia sobre a linha de minha coluna, dançando e correndo vértebra por vértebra, dando-me um choque adoravelmente relaxante. Meu corpo sente um ligeiro calafrio, desde o dedão até o último fio de cabelo. Feito isso, já me sinto parte do mar.


Abro os braços longamente, aponto meu peito desnudo na direção da primeira onda que vem. A água bate fortemente em meu corpo e quase me leva ao chão, quando firmo melhor o apoio dos pés para não cair. Neste momento em que o mar me mostra quem manda por ali, vejo o quanto é bom de vez em quando se dar ao luxo de perder. Quando a próxima onda se aproxima, relaxo toda a musculatura e deixo que o mar me leve pra onde quiser, então vou flutuando silenciosamente, como que de volta ao ventre materno. O calor de meu corpo se acende em faíscas no contato com a água fresca, encontrando na contradição o equilíbrio.


Sozinho, em meio ao mar que beira o infinito, grito voraz e ferozmente, como um animal que de verdade não sei se deixei de ser algum dia. Deslizo meus dedos sobre a água cristalina, depois bato as duas palmas da mão sobre a água, gritando para extravasar todo o resquício urbano que resta em mim. Agora sim, volto ao que era e jamais deveria ter deixado de ser. Mundano, vil e sem metafísica alguma, simplesmente aproveitando o prazer de existir.


Ao sair da água, jogo displicentemente meu corpo sobre a areia e olho para o céu, que me presenteia com uma deliciosa chuva fina. Abro a boca o máximo que posso e infantilmente tento beber a água que cai, rindo sozinho de minha própria estupidez. Aqui, estendido desengonçadamente entre o fim da água e o começo da areia, sinto-me plenamente rude, irracional.


Eu, pragmático convicto e praticante, neste momento não encontro explicação lógica em me sentir tão plenamente feliz como agora. Bom sinal, penso eu, pois as melhores coisas que vivi simplesmente não fazem sentido algum.

 



Escrito por Ricardo Martins às 22h38
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Vinte e seis

Vinte e seis anos tenho eu.
Vinte e seis voltas ao redor do sol,
Vinte e seis primaveras e carnavais,
Milhares de dias, milhões de segundos
Que conforme enumero aumentam mais.

Vou parar de contar os números
E começar a contar histórias,
Infâmias e pecados,
Derrotas e vitórias
Que podem ser ditas, mas não contadas.

Os lugares por onde passei,
As estradas por onde andei,
Os rastros por mim deixados
Onde me perdendo me encontrei.

As pessoas com quem conversei,
Os inimigos que apoiei,
Os amigos que sempre fiz,
E até mesmo os que deixei.

As palavras que disse,
As infâmias que calei,
As mentiras que ouvi
E até mesmo as que contei.

As mulheres que amei,
Os sonhos que compartilhei,
As juras ao pé do ouvido
Daquelas que decepcionei.

Vinte e seis anos tenho eu,
E não quero mais contar assim
Com esses números infinitos
Que não dizem nada sobre mim.

Ricardo Martins



Escrito por Ricardo Martins às 17h56
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Sempre ela

Foram-se amigos e mulheres, derrotas e sucessos, e ela sempre esteve ao meu lado. Formei rastros por bairros e cidades, estados e países, até formar sobre minhas pernas um imenso continente sulamericano, tão grande quanto meus sonhos. Até quando eu mesmo me abandonei, ela sempre esteve ao meu lado. Entre as tantas declarações que fiz a mulheres, povos e países, eis que chega o momento de dedicar esta singela parte para minha querida Capitu.


Hoje resolvi meter o pé na estrada, indo de Curitiba até Santa Catarina, trecho curto, porém o primeiro depois da última operação no joelho. Dei início ao meu velho ritual de viagem, talvez usando o pouco misticismo que resta em um ateu incorrigível como eu: Abro a porta de um quarto escuro, vendo a silhueta de Capitu se formando enquanto as frestas de luz irrompem sobre a escuridão. Sem dizer uma palavra, vejo minha fiel escudeira e a acaricio sutilmente, como que unindo entre ela e meus dedos duas partes que jamais deviam separar-se. Coloco meu primeiro pé sobre o pedal, olho para o horizonte que virá, respiro levemente e lhe digo baixinho, quase em tom de confissão:


- Simbora, Capitu...  

E daquele momento em diante somos somente nós, a estrada e a adorável imprevisibilidade das coisas.


Ao lado dela, não me preocupo em ser o melhor ou o pior em nada, apenas em ser eu mesmo, pouco importa. Na estrada ela é a extensão do meu corpo, fora dela é a extensão da minha mente. Se muitos fecham os olhos e se imaginam numa ilha paradisíaca num clima tropical, fecho os olhos e só preciso me imaginar com ela e me sinto muito melhor, sem a necessidade de pensar sobre onde estou, sé chove torrencialmente, se faz sol, não importa.  Juntos somos felizes por estarmos completos, é tão simples que poucos entendem.


Sempre escuto que é loucura ter uma relação tão intrínseca com uma simples bicicleta, ou que é loucura viajar por tantos países sozinho e sem dinheiro, mas não me importo muito e até curto o desafio da quebra de paradigmas. Loucura pra mim é viver a vida de forma automática, com as divertidas loucuras que cada um tem sendo corrompidas pelo que parece óbvio para a maioria.


E vamo que vamo. Pé na estrada. Como sempre deveria ser



Escrito por Ricardo Martins às 15h34
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Sobre sonhos e sonhadores

Hoje, 6 meses depois de postar neste humilde blog, tomo coragem de voltar a escrever. Não, não se trata simplesmente de ter o que dizer ou de saber como fazê-lo. Creio que o tempo me fez ter medo de olhar a mim mesmo, e minhas linhas são demasiado transparentes para possibilitar que eu me esconda, de todos vocês ou de mim.


Cansei de retratar a heróica epopéia contra meu joelho, pois não foi para isso que resolvi compartilhar minhas histórias. O Roda América não foi feito para falar disso, ou me atrevo a dizer que minha viagem sequer foi feita para que eu fale somente sobre ela. Comecei a escrever porque sabia que tinha o dom de tocar as pessoas, viajei para que estas pessoas pudessem tocar a mim, para escrever sobre isso e seguir girando a roda, simples assim. Vejo que o Roda América se trata de uma inexorável expedição ao redor de corações latino americanos, com histórias simples e pulsantes de gente simples como eu, deixando-me apenas o papel de um ávido ouvinte e narrador.


Lembro-me claramente do acaso que me fez chegar até um exemplar do livro “As veias abertas da América Latina”, do agora querido amigo Eduardo Galeano. Este livro foi um presente errado devolvido a mim, e transformou-se no estopim necessário para que eu quisesse ver o mundo com os meus próprios olhos.  Do fundo do coração, desejo que o mesmo acaso faça com que muitos cheguem aos meus textos e o catalisem para alguma mudança, sendo eu apenas o responsável de tornar visível a chama que existe em cada um de nós e raramente nos detemos para observar. Nada disso trata-se somente de escutar a mim ou a qualquer outra pessoa, mas antes de tudo de escutar a si mesmo, pra ouvir aquele leão interno que ruge e tenta chegar à superfície.


Concretizei um grande sonho que muitos imaginavam impossível, e graças a isso nada me parece tão difícil ao ponto de me fazer desistir sem antes tentar arduamente. Sou movido a desafios, e sei que nada pode me parar se eu der o máximo de mim, então vejamos até onde essa explosiva combinação vai me levar.


Agora pergunto a você, caro leitor: O que te impede de realizar seu grande sonho? (Responda nos comentários)



"Luchan mejor los que tienen bellos sueños."
Ernesto Guevara



Escrito por Ricardo Martins às 22h25
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Cirurgias no joelho

Enquanto estava na cama do hospital, como nos velhos tempos de Bolívia, comecei a refletir sobre as constantes batalhas perdidas nessa saga épica contra os limites do meu corpo.


Antes pensei que poderia cruzar o mundo sem sequer me arranhar, depois pensei que meu corpo superaria os arranhões, logo as chagas se complicaram até uma internação por salmonela e hepatite que quase me matou,  e dessa escapei até chegar a uma cadeira de rodas até felizmente haver voltado a caminhar. Meu corpo cobrou um justo preço por cada estripulia que me dei ao luxo de fazer para realizar os meus sonhos.


Depois da cadeira de rodas, eu já havia me recuperado o suficiente para pedalar em viagens curtas de no máximo 600 kms, porém  passaram-se alguns meses e as antigas dores voltaram. Após exames exaustivos, veio a inevitável cirurgia no joelho. Após duas operações realizadas, segue o placar geral:

  • Dois parafusos na tíbia, pra correção de uma má angulação genética.
  • Dois parafusos na rótula, pra fixar o ligamento que se lesionou com os anos de bicicleta e a lesão no tae-kwon-do.
  • Menisco lixado para correção de uma calcificação extra que se formou com o tempo, sabe-se lá por que. Não que faltem motivos pro joelho ter desenvolvido essa anomalia.


Depois da traumática cirurgia, veio o começo da recuperação, uma mais.  Imobilizador, muletas, dores que não me deixaram dormir, calmantes, analgésicos, antiinflamatórios e 3 semanas sem poder sair da cama, onde aprendi uma modalidade mais no que se trata de dor: É como o oposto da dor de um beliscão, quando se sente uma dorzinha que parece um leve choque, que te sobressalta. Uma dor óssea é algo para dentro, que não te desperta e sim te encolhe, que não te dá vontade de gritar e sim de sussurrar.

Como parte do meu problema é genético,  uma nova cirurgia me espera em breve para o outro joelho, que não escapou desse mal. Não vejo mais como voltar a pedalar cruzando países, no máximo penso em voltar a ter uma vida normal e poder praticar alguns esportes com moderação. Apesar da meta modesta, ainda não abandonei minha obstinação em ampliá-la, sendo que agora aprendi a respeitar os sinais de debilidade do meu corpo. Já era hora, diga-se de passagem.

Mais do que por minhas pernas, sou movido por desafios, seja ele cruzar o mundo em cima de uma bicicleta ou simplesmente caminhar um metro sem o auxílio de nada. Sim, é uma meta modesta, mas que precisa ser vencida até que passos mais ousados sejam possíveis.



Escrito por Ricardo Martins às 23h45
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A segunda primeira girada de pedal

O que estou a ponto de relatar nada mais é do que uma cena de poucos segundos, os mais aguardados em muitos meses após uma lesão de recuperação lenta e dolorosa. Isso pode parecer um exagero, mas quem pedala ou vive algo intensamente sabe o valor que algumas coisas simples tem. Esse ritual deve ter durado uns poucos segundos, mas teve para mim o sentido de saída de uma inércia física e mental que ocupava o centro de minhas angústias.


 “Lembro-me claramente dos detalhes ao reencontrar minha fiél escudeira Capitu, após muitos meses com uma lesão que me impediu de pedalar. Olhei-a meio desconfiado, passei a mão sobre seus contornos de aço e disse carinhosamente a ela o que ambos esperávamos dizer e ouvir:

 - Simbóra, Capitu...

 Subi no banco, acomodei meus punhos trêmulos sobre o guidão e percebi que lentamente eles ganhavam a segurança dos velhos tempos. Respirei profunda e lentamente, sentindo um ar quente em meus pulmões. Sobre o pneu dianteiro caiu uma gota de minha testa, a primeira de bilhões de outras que certamente estavam por vir. Com todos os meus sentidos plenamente ocupados e satisfeitos, acomodei o pé direito sobre o pedal.

Girei-o lentamente... Agora com os dois pés que saíam do solo e vinham a ocupar os lugares que lhe eram de direito e onde há muito tempo deveriam estar...

Admirei em silêncio a roda dianteira que lentamente se movia, quando ergui o queixo e fitei o horizonte que debruçava-se sobre meus olhos. O vento que antes era quente em meus pulmões agora me refrescava e dançava alegremente sobre minha face. Fechei os olhos por uns segundos e sorri infantilmente, e num novo piscar de olhos uma lágrima caiu até chegar em minha boca e misturar-se com meu sorriso, com um doce gosto salgado deliciando meu paladar.

 Sinto sob meus calcanhares as costelas de Rocinante*, indicando que a jornada segue e que mais aventuras estão por vir.”

 Ricardo Martins

*Parafraseando trechos de Miguel de Cervantes. Rocinante é o nome dado por Don Quixote a seu cavalo..

 

 

 

Ricardo Martins

 



Escrito por Ricardo Martins às 17h31
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A caminhada

Sinto-me como um bebê que pouco a pouco aprende a dar o primeiro passo, depois faz isso repetidamente para caminhar, e logo ganha segurança ao fazê-lo mais vezes. Tenho a vantagem e a desvantagem de que a idade adulta me proporciona maior consciência de cada passo, e graças a isso sofro mais com minhas limitações ao mesmo tempo em que desfruto mais cada nova conquista.

Hoje, passados 5 meses desde a lesão, meu lado pessimista mostra o quanto falta por evoluir até estar 100%, porém o lado otimista nota o quanto conquistei desde então. Passo a passo deixei o imobilizador, uma das muletas, depois a outra, até aos poucos reaprender a andar sozinho, subir escada com uma perna de cada vez, depois usando as duas...E por aí vai. Hoje posso dizer que faço todos os movimentos básicos e caminho sem mancar, embora esteja longe de fazer qualquer movimento mais brusco.

Recentemente voltei a treinar com supervisão médica, o que de fato me proporcionou a satisfação de constatar para mim mesmo que o sonho de desbravar a América continua. Sei que muitos acreditaram em mim desde sempre, mesmo nos piores momentos, mas somente ao dar a primeira girada de pedal é que partilhei da mesma opinião. Sim, faltava a companhia de minha querida Capitu. Este momento foi tão importante para mim que resolvi relatá-lo no próximo post. Enfim

Hoje estou pedalando por 3 horas 2 vezes por semana. Além disso, faço 1 hora diária de musculação, vou 3 vezes por semana na fisioterapia e esporadicamente estou nadando também. Tenho treinado com a obstinação que sempre foi minha principal arma contra qualquer incapacidade que me desafia.

Creio que ficarei todo o ano de 2010 aqui em Buenos Aires. Comecei a trabalhar na Hewlett Packard enquanto isso, o que não estava em meus planos iniciais mas que veio bem a calhar, pra poder custear as despesas médicas e quando possível juntar alguma grana. Dia após dia, trabalho duro e treino mais duro ainda, pra encurtar cada vez mais a espera pra meter o pé na estrada.

De fato não tenho muito do que me queixar ao passar mais essa temporada inesperada com nuestros hermanitos argentinos. Desfruto um tempo mais com a namorada, cuido dos desgastes gerais do corpo depois dos anos de estrada e posso ir replanejando tudo com calma. As pessoas na Argentina têm me proporcionado tantos momentos felizes, que não será trabalho algum ficar um pouco mais por aqui.

Embora de vez em quando eu feche os olhos e respire fundo pra lembrar o cheiro de capim da estrada, vou controlando a ansiedade. Não, definitivamente não tenho pressa, mas dou cada passo necessário enquando de rabo de olho vejo a estrada que se extende rumo ao desconhecido.

 



Escrito por Ricardo Martins às 17h28
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Em busca do novo primeiro passo

No meu caso, lesionar o joelho se trata mais de uma batalha psicológica do que física. Mais do que meu corpo, minhas pernas movem meus sonhos, por isso tem sido difícil superar minha temporária incapacidade.

Primeiro foi a cadeira de rodas: Algumas atividdes que antes eram simples passaram a ser impossíveis para mim, tais como colocar o sapato, subir escadas, ou simplesmente ir ao supermercado que fica a duas quadras de onde eu vivo. Além da dificuldade de passar por calçadas esburacadas e demais detalhes antes imperceptíveis para mim, passei a ter um certo medo de sair pra rua e ver como as pessoas supostamente me olhavam. Creio que mais do que como as pessoas me olhavam, a forma depressiva com que eu olhava a mim mesmo era o que de fato tornava as coisas mais difíceis do que de fato deveriam ser. Mesmo que soe patético, confesso que chorei quando olhei pra minha fiel escudeira Capitu e me dei conta de que pela primeira vez eu não poderia acompanhá-la  e desbravar o mundo como antes costumávamos fazer.

No primeiro momento estive bem longe de ser um cara forte, mas aos poucos vou recuperando o joelho e a auto estima. Desculpem por decepcionar mais uma vez aos que me idealizam como um aventureiro destemido, porém cada mais vejo que minha força vem das pessoas incríveis que tenho ao meu lado quando fraquejo. Nesse caso, preciso agradecer imensamente a todos os argentinos que estiveram constantemente comigo (apesar da sova que o Brasil deu na Argentina nas eliminatórias), e especialmente à sempre citada Daniela, que foi o motivo da minha mudança de planos ao vir pra Buenos Aires e dia após dia faz com que eu veja o quanto fiz a coisa certa. Ela foi minha perna enquanto eu não podia usá-la, minha calma nos momentos de depressão e um abraço forte quando perdia as esperanças. Enquanto escrevo essa parte do texto, noto uma lágrima furtiva que me cai ao lembrar dessas pessoas, e mais uma vez até nessa parte difícil percebo o quanto essa viagem é importante para mim.

Enfim, momentos “mela cueca” à parte, pouco a pouco vou me recuperando. Tenho boas chances de por milagre escapar da opecação, estou com um imobilizador no joelho, evoluí da cadeira de rodas para as muletas e lentamente vou recuperando os movimentos básicos da perna. Se tudo correr bem, tenho programado tirar o imobilizador em 30 dias, fazer fisioterapia por uns 2 meses e seguri com exercícios graduais até reaprender a andar, correr e finalmente pedalar. Tinha o único plano de aprender o que fosse necessário pra viver bem e ser uma pessoa melhor, mesmo que isso signifique simplesmente reaprender a andar. 

Lembro agora de tudo o que tive que enfrentar quando essa viagem era ainda apenas um sonho distante. Lembro que o difícil não foi imaginar os apuros que viriam, mas sim dar o primeiro passo ao deixar toda a minha vida para trás e construir uma nova. Agora só preciso me preparar para um novo primeiro passo, neste caso no sentido literal da palavra mas felizmente igual aos muitos outros que viráo pelo caminho.

 



Escrito por Ricardo Martins às 04h59
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Roda América em duas rodas. Cadeira de rodas, aliás...

Todos sabem que meus joelhos davam sinais de desgaste já desde um bom tempo atrás, desde antes de que eu começasse a viagem. Quatro meses antes de começar a viagem, torci o joelho numa partida de volei, mas resolvi que poderia seguir. Um ano depois, fraturei gravemente o mesmo joelho na Bolivia, mas também resolvi que poderia seguir. Agora, dois anos depois, lesionei de forma mais séria o mesmo joelho, e a temporária cadeira de rodas me fez notar que chega finalmente a hora de parar de brincar de ser super homem.

Em Buenos Aires comecei a lutar Taekwondo, muito empolgado com meu rápido avanço e uma pequena coleção de nocautes contra gente de faixas mais avançadas do que a minha. Eu era apenas um reles faixa branca, tombando adversários aos montes e orgulhoso de ver que havia descoberto um potencial mais em mim. Eis que em uma luta não oficial, a primeira depois de ter passado de faixa, tentei dar um chute giratório. O pé de apoio permaneceu estático no solo, enquanto o restante da perna girava para completar o chute, fazendo com que meu joelho esquerdo (o de sempre) desse uma volta de 180 graus. Fora do tatame foi possível escutar o estalo do joelho, acompanhados de meus gritos alucinados e desesperados enquanto eu me debatia pelo chão. Entre as muitas experiências e sensações da viagem, eis que acrescento mais uma pra coleção: Dor, muita dor, como jamais imaginei que poderia sentir.

Estirado sobre o tatame, minha visão começava a escurecer, o que me deu a curiosamente agradável sensação de que um desmaio poderia vir a fazer a dor parar, mas não. Via pessoas correndo por todos o lados em busca de gelo, médico, Deus ou o que fosse, enquanto eu chorava já não mais somente de dor, justo porque imaginava as consequências dessa lesão. Em um filme mental imaginei muletas, sala de operação, fisioterapia e um potencial risco de ter que abandonar meu sonho de seguir viajando. Não sei muito bem o que vai acontecer nos próximos dias, porém agora já mais calmo sei que seguirei viajando, passe o que passar, nem que eu tenha que adaptar uma bicicleta e pedalar com os braços.

Tenho a total responsabilidade de tudo o que me passou. Eu poderia ter cuidado e operado o joelho, mas nao o fiz. Poderia ter decansado mais tempo, mas ao invés disso pedalei uns dois mil quilômetros mais e ainda por cima resolvi fazer triatlon. Poderia ter sossegado o rabo pra fortalecer o joelho enquanto parei por Buenos Aires, mas ao invés disso segui treinando e ainda resolvi praticar uma arte marcial de impacto direto sobre minhas pernas. O foda de ser ateu é que não dá pra encontrar culpados extras ou “escritas certas sobre linhas tortas” detrás dos erros cometidos unica e exclusivamente pela minha mania de achar que posso tudo.

 



Escrito por Ricardo Martins às 02h05
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Punta del Leste à venda

 

De longe pela estrada eu via luxuosos prédios que cortavam o meu até então inabitado céu azul, indicando-me que se aproximava a tão falada cidade de Punta del Leste. Normalmente a altura dos prédios de uma cidade é inversamente proporcional ao tamanho da amabilidade alheia. Enfim, poderia ser somente um preconceito, mas não.

Na entrada da cidade, entre os muitos outdoors havia o de uma imobiliária que dizia “Punta del Leste à venda”. Isso para mim sintetizou o que vi em cada canto, onde cada centímetro é vendido a quem possa pagar bem por ele. Definitivamente nem a beleza nem a amabilidade eram coisas gratuitas, e muitos menos eu podia ou queria pagar por isso. Vi praias em que as pessoas mais se exibiam do que se banhavam, mais ostentavam do que desfrutavam, ou o pior é que desfrutavam enquanto ostentavam. Uma pena ver uma cidade tão linda, palco de discursos de líderes que mudaram minha forma de pensar sobre o mundo, hoje simplesmente rebaixada a um lugar superficial qualquer.

A noite caiu e fui buscar um lugar pra acampar, porém descobri que as empresas de camping pressionaram para proibir o camping nas florestas para não interferir no lucro deles (cada centímetro à venda, lembram?), isso sem contar com a repressão policial, que é paga com dinheiro do contribuinte para reprimir quem atua contra o ganho de apenas um dono de camping, que por estranha coincidência é deputado local. Passei por campos pobres onde o uruguaio tem para comer basicamente o que planta, e pedalei pensando no que faltava para dar assistência a essa gente. Faltar, não falta nada, mas Punta del Leste me mostrou o que precisa ser dividido.

Em tempos cuja força de um político na mídia se mede basicamente pelo que é feito aos pobres, vejo que os maiores cânceres sociais são provocados curiosamente pelo que é feito aos ricos. Entre o “pão e circo” destinado aos pobres e o progresso excludente destinado aos ricos, me pergunto o que é mais corrosivo para uma sociedade e por qual dos dois eu deveria optar...

Não quero nem um nem outro. Aliás, quem foi que disse que preciso querer alguma dessas opções? Entre um tiro na mão ou no pé, ainda creio que posso optar simplesmente por não tomar o tal tiro.

 



Escrito por Ricardo Martins às 01h58
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Hospitalidade Uruguaia, uma vez mais

Começo a empreender a viagem de volta para Buenos Aires, com o detalhe de ter em meus bolsos apenas o equivalente a 70 centavos para completar os 450 km que me restam (o equivalente a distancia entre RJ e SP). Para isso, obviamente terei que abandonar o prosaico método da compra, mas fora isso não vejo grandes problemas para completar essa parte da aventura.

Já dizia o sábio Murphy que as coisas dão errado justo quando não podem dar. Devido a muitos dias de calor intenso na estrada, o pneu e a câmera da Capitu explodiram, sendo que eu não tinha grana pra consertar nem um nem outro, aliás eu não tinha grana para nada mais do que uns 4 pães. Caminhei algumas horas até o povoado mais próximo buscando um lugar pra consertar a roda da Capitu até que um jovem se ofereceu pra me acompanhar até a loja de bicicleta mais próxima. Chegando na loja, expliquei que estava a alguns dias viajando pelo Uruguai e que estava ao fim dessa parte da viagem, e que por isso eu já não tinha mais dinheiro para pagar nada (mentira, pois desde o começo da viagem no Brasil, há 1 ano e meio atrás, eu não tinha dinheiro pra nada). Num descontraído bate-papo, em que conversamos sobre minhas idas e vindas pelo Uruguai e pela América do sul, o dono da loja de bicicleta me disse:

- Relaxa que a gente dá um jeito, brasuco (é uma forma de se referir bem informalmente a um brasileiro). Você tá na mão de um uruguaio e ciclista, e em ambos os casos jamais deixamos na mão alguém que precisa de ajuda.

O cara tirou dos fundos da loja um pneu e uma câmera já usados e colocou na Capitu sem me cobrar nada. Os caras da loja eram da federação de ciclista do clube Peñarol (um dos times de futebol mais tradicionais do Uruguai), e em troca apenas pediram para que eu colocasse um adesivo deles na Capitu. Eu colocaria um adesivo deles até na minha testa se fosse necessário. Agradeci imensamente e segui viagem com minha roda nova, que não era tão nova assim mas que agüentaria pelo menos uns mil quilômetros mais.

Pela tarde parei pra encher as minhas garrafas de água numa casa na beira da estrada perto de Maldonado, quando fui agradavelmente recebido por uma numerosa família uruguaia. Enquanto eles colocavam água fresca com gelo (“ta muito quente lá fora, menino” dizia a mulher que enchia a garrafa), um deles me perguntou se eu queria comer com eles. CLARO, disse eu, já sem conseguir esconder a imensa fome que ocupava meu vazio estomago.

- Pois bem, agora você vai comer um legítimo macarrão caseiro uruguaio, que fizemos hoje de manhã e acabamos de cozinhar, sortudo!

Me serviram dois pratos cheios de talharim “Al pesto” e outro ao molho branco com champignon.  Conversamos animadamente por mais de uma hora sobre as divertidas histórias da numerosa família que me abrigava. Me despedi com

uma saudade antecipada, com a barriga cheia e a alma leve.

Em um mesmo dia fui salvo de interromper a viagem e de passar o dia com fome. Para isso não tive que pedir nada, apenas me preocupei em fazer amigos em cada lugar onde parei. Tenho medo de cair em repetição extrema ao relatar a hospitalidade uruguaia, porém isso é algo que ocorre diariamente em múltiplos pontos do país. Tenho apenas algumas poucas moedas em meu tradicional bolso vazio, porém ao meu lado tenho quase que um país inteiro disposto a me ajudar no que for preciso para que os meus dias no Uruguai sejam os melhores possíveis. Não, definitivamente não tenho medo por estar ao lado deles.

Família Uruguaia

 



Escrito por Ricardo Martins às 20h53
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Carlos, o apicultor comunista

Algumas vezes penso que o dia será como qualquer outro, com pedalada por todo o dia, culminando com a busca de um lugar tranqüilo pra descansar e seguir na manhã seguinte. Porém há pessoas, sempre elas, que transformam simples dias em intrínsecas memórias de viagem. Hoje conheci Carlos, o apicultor.

Carlos é responsável pelo centro meteorológico onde eu passei a noite. Com a já usual hospitalidade uruguaia, fui recebido com direito a comida, lugar pra um bom banho fresco e um cantinho pra armar minha barraquinha. Carlos me presenteou com muitas histórias sobre o povo Uruguaio e as causas pelas quais ele lutava.

Carlos, como ele mesmo diz, é “meteorologista por profissão, apicultor por robbie e comunista por paixão”. Me explicou como funcionam as abelhas e os políticos, as colméias e a sociedade uruguaia, com uma surpreendente simplicidade. Por todas suas pastas estavam adesivos comunistas, que segundo ele serviam para mostrar aos outros pelo que ele lutava. Segundo ele mesmo, “as abelhas cuidam juntas da colméia, cada qual com sua função mas em busca de um só objetivo, o que é perfeitamente comunista”. Escutei sobre as causas sobre as quais ele lutava com paixão curiosamente racional e intensa. Não concordo ou discordo com nada em lugar algum, o que faz de mim um ótimo ouvinte.

Carlos me presenteou com mel para que eu lembrasse de suas abelhas, e com conhecimento das lutas populares para que eu lembrasse do povo uruguaio. “O Uruguai é um dos poucos lugares cuja revolução chegará não por armas, mas por uma mudança gradual de mentalidade” . Segundo Carlos, estas palavras foram ditas por Che Guevara em Punta del Leste, o que faz um perfeito sentido na medida em que conheço na prática o que representa ser uruguaio.

Nunca cheguei a propor mudar o mundo sozinho, porém graças a pessoas como Carlos é que prego por todos os cantos que a revolução pessoal é perfeitamente possível, e depois quem sabe seremos capazes de uma mudança significativa na sociedade.

http://picasaweb.google.com/rodaamerica/Uruguai

 



Escrito por Ricardo Martins às 23h57
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Leões marinhos de Cabo Polónio

Numa praia perdida no leste Uruguaio, eis que encontrei uma colônia com mais de mil lobos marinhos. Tentei escrever e reescrever alguns textos para descrever o que senti e vi, até que percebi que neste caso um vídeo falaria por si só. Espero que curtam tanto quanto eu

 



Escrito por Ricardo Martins às 19h10
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