Roda América


A praia

Desde longe vejo o oceano. Ao contemplar tal paisagem, alguns param e respiram serenamente, para aproveitar o marasmo reflexivo das águas. Eu não... Sinto-me impelido a gritar feito um animal e correr de encontro com o mar, até que a onda bata fortemente em meu peito.


Com a mesma imprecisão entusiasmada de um virgem adolescente, tiro minha roupa enquanto corro pela areia, tropeçando enquanto tiro meu short e o jogo pra bem longe. Sinto a areia quente sob meus pés descalços enquanto avanço, até sentir os grãos cada vez mais úmidos e frios, quando finalmente a ponta de meus dedos encosta no último ponto em que a onda conseguiu chegar. Levanto meus olhos e contemplo o oceano, saudando mentalmente a este amigo imprevisível e turbilhonante, que se estende até além de meus olhos e minha compreensão.


Com apenas os calcanhares submersos, inclino-me suavemente e molho meus pulsos, ajustando minha temperatura ao novo ambiente. Levo as mãos molhadas até a nuca e deixo que um filete de água caia sobre a linha de minha coluna, dançando e correndo vértebra por vértebra, dando-me um choque adoravelmente relaxante. Meu corpo sente um ligeiro calafrio, desde o dedão até o último fio de cabelo. Feito isso, já me sinto parte do mar.


Abro os braços longamente, aponto meu peito desnudo na direção da primeira onda que vem. A água bate fortemente em meu corpo e quase me leva ao chão, quando firmo melhor o apoio dos pés para não cair. Neste momento em que o mar me mostra quem manda por ali, vejo o quanto é bom de vez em quando se dar ao luxo de perder. Quando a próxima onda se aproxima, relaxo toda a musculatura e deixo que o mar me leve pra onde quiser, então vou flutuando silenciosamente, como que de volta ao ventre materno. O calor de meu corpo se acende em faíscas no contato com a água fresca, encontrando na contradição o equilíbrio.


Sozinho, em meio ao mar que beira o infinito, grito voraz e ferozmente, como um animal que de verdade não sei se deixei de ser algum dia. Deslizo meus dedos sobre a água cristalina, depois bato as duas palmas da mão sobre a água, gritando para extravasar todo o resquício urbano que resta em mim. Agora sim, volto ao que era e jamais deveria ter deixado de ser. Mundano, vil e sem metafísica alguma, simplesmente aproveitando o prazer de existir.


Ao sair da água, jogo displicentemente meu corpo sobre a areia e olho para o céu, que me presenteia com uma deliciosa chuva fina. Abro a boca o máximo que posso e infantilmente tento beber a água que cai, rindo sozinho de minha própria estupidez. Aqui, estendido desengonçadamente entre o fim da água e o começo da areia, sinto-me plenamente rude, irracional.


Eu, pragmático convicto e praticante, neste momento não encontro explicação lógica em me sentir tão plenamente feliz como agora. Bom sinal, penso eu, pois as melhores coisas que vivi simplesmente não fazem sentido algum.

 



Escrito por Ricardo Martins às 22h38
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