Roda América


A segunda primeira girada de pedal

O que estou a ponto de relatar nada mais é do que uma cena de poucos segundos, os mais aguardados em muitos meses após uma lesão de recuperação lenta e dolorosa. Isso pode parecer um exagero, mas quem pedala ou vive algo intensamente sabe o valor que algumas coisas simples tem. Esse ritual deve ter durado uns poucos segundos, mas teve para mim o sentido de saída de uma inércia física e mental que ocupava o centro de minhas angústias.


 “Lembro-me claramente dos detalhes ao reencontrar minha fiél escudeira Capitu, após muitos meses com uma lesão que me impediu de pedalar. Olhei-a meio desconfiado, passei a mão sobre seus contornos de aço e disse carinhosamente a ela o que ambos esperávamos dizer e ouvir:

 - Simbóra, Capitu...

 Subi no banco, acomodei meus punhos trêmulos sobre o guidão e percebi que lentamente eles ganhavam a segurança dos velhos tempos. Respirei profunda e lentamente, sentindo um ar quente em meus pulmões. Sobre o pneu dianteiro caiu uma gota de minha testa, a primeira de bilhões de outras que certamente estavam por vir. Com todos os meus sentidos plenamente ocupados e satisfeitos, acomodei o pé direito sobre o pedal.

Girei-o lentamente... Agora com os dois pés que saíam do solo e vinham a ocupar os lugares que lhe eram de direito e onde há muito tempo deveriam estar...

Admirei em silêncio a roda dianteira que lentamente se movia, quando ergui o queixo e fitei o horizonte que debruçava-se sobre meus olhos. O vento que antes era quente em meus pulmões agora me refrescava e dançava alegremente sobre minha face. Fechei os olhos por uns segundos e sorri infantilmente, e num novo piscar de olhos uma lágrima caiu até chegar em minha boca e misturar-se com meu sorriso, com um doce gosto salgado deliciando meu paladar.

 Sinto sob meus calcanhares as costelas de Rocinante*, indicando que a jornada segue e que mais aventuras estão por vir.”

 Ricardo Martins

*Parafraseando trechos de Miguel de Cervantes. Rocinante é o nome dado por Don Quixote a seu cavalo..

 

 

 

Ricardo Martins

 



Escrito por Ricardo Martins às 17h31
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A caminhada

Sinto-me como um bebê que pouco a pouco aprende a dar o primeiro passo, depois faz isso repetidamente para caminhar, e logo ganha segurança ao fazê-lo mais vezes. Tenho a vantagem e a desvantagem de que a idade adulta me proporciona maior consciência de cada passo, e graças a isso sofro mais com minhas limitações ao mesmo tempo em que desfruto mais cada nova conquista.

Hoje, passados 5 meses desde a lesão, meu lado pessimista mostra o quanto falta por evoluir até estar 100%, porém o lado otimista nota o quanto conquistei desde então. Passo a passo deixei o imobilizador, uma das muletas, depois a outra, até aos poucos reaprender a andar sozinho, subir escada com uma perna de cada vez, depois usando as duas...E por aí vai. Hoje posso dizer que faço todos os movimentos básicos e caminho sem mancar, embora esteja longe de fazer qualquer movimento mais brusco.

Recentemente voltei a treinar com supervisão médica, o que de fato me proporcionou a satisfação de constatar para mim mesmo que o sonho de desbravar a América continua. Sei que muitos acreditaram em mim desde sempre, mesmo nos piores momentos, mas somente ao dar a primeira girada de pedal é que partilhei da mesma opinião. Sim, faltava a companhia de minha querida Capitu. Este momento foi tão importante para mim que resolvi relatá-lo no próximo post. Enfim

Hoje estou pedalando por 3 horas 2 vezes por semana. Além disso, faço 1 hora diária de musculação, vou 3 vezes por semana na fisioterapia e esporadicamente estou nadando também. Tenho treinado com a obstinação que sempre foi minha principal arma contra qualquer incapacidade que me desafia.

Creio que ficarei todo o ano de 2010 aqui em Buenos Aires. Comecei a trabalhar na Hewlett Packard enquanto isso, o que não estava em meus planos iniciais mas que veio bem a calhar, pra poder custear as despesas médicas e quando possível juntar alguma grana. Dia após dia, trabalho duro e treino mais duro ainda, pra encurtar cada vez mais a espera pra meter o pé na estrada.

De fato não tenho muito do que me queixar ao passar mais essa temporada inesperada com nuestros hermanitos argentinos. Desfruto um tempo mais com a namorada, cuido dos desgastes gerais do corpo depois dos anos de estrada e posso ir replanejando tudo com calma. As pessoas na Argentina têm me proporcionado tantos momentos felizes, que não será trabalho algum ficar um pouco mais por aqui.

Embora de vez em quando eu feche os olhos e respire fundo pra lembrar o cheiro de capim da estrada, vou controlando a ansiedade. Não, definitivamente não tenho pressa, mas dou cada passo necessário enquando de rabo de olho vejo a estrada que se extende rumo ao desconhecido.

 



Escrito por Ricardo Martins às 17h28
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