Roda América em duas rodas. Cadeira de rodas, aliás...
Todos sabem que meus joelhos davam sinais de desgaste já desde um bom tempo atrás, desde antes de que eu começasse a viagem. Quatro meses antes de começar a viagem, torci o joelho numa partida de volei, mas resolvi que poderia seguir. Um ano depois, fraturei gravemente o mesmo joelho na Bolivia, mas também resolvi que poderia seguir. Agora, dois anos depois, lesionei de forma mais séria o mesmo joelho, e a temporária cadeira de rodas me fez notar que chega finalmente a hora de parar de brincar de ser super homem.
Em Buenos Aires comecei a lutar Taekwondo, muito empolgado com meu rápido avanço e uma pequena coleção de nocautes contra gente de faixas mais avançadas do que a minha. Eu era apenas um reles faixa branca, tombando adversários aos montes e orgulhoso de ver que havia descoberto um potencial mais em mim. Eis que em uma luta não oficial, a primeira depois de ter passado de faixa, tentei dar um chute giratório. O pé de apoio permaneceu estático no solo, enquanto o restante da perna girava para completar o chute, fazendo com que meu joelho esquerdo (o de sempre) desse uma volta de 180 graus. Fora do tatame foi possível escutar o estalo do joelho, acompanhados de meus gritos alucinados e desesperados enquanto eu me debatia pelo chão. Entre as muitas experiências e sensações da viagem, eis que acrescento mais uma pra coleção: Dor, muita dor, como jamais imaginei que poderia sentir. Estirado sobre o tatame, minha visão começava a escurecer, o que me deu a curiosamente agradável sensação de que um desmaio poderia vir a fazer a dor parar, mas não. Via pessoas correndo por todos o lados em busca de gelo, médico, Deus ou o que fosse, enquanto eu chorava já não mais somente de dor, justo porque imaginava as consequências dessa lesão. Em um filme mental imaginei muletas, sala de operação, fisioterapia e um potencial risco de ter que abandonar meu sonho de seguir viajando. Não sei muito bem o que vai acontecer nos próximos dias, porém agora já mais calmo sei que seguirei viajando, passe o que passar, nem que eu tenha que adaptar uma bicicleta e pedalar com os braços. Tenho a total responsabilidade de tudo o que me passou. Eu poderia ter cuidado e operado o joelho, mas nao o fiz. Poderia ter decansado mais tempo, mas ao invés disso pedalei uns dois mil quilômetros mais e ainda por cima resolvi fazer triatlon. Poderia ter sossegado o rabo pra fortalecer o joelho enquanto parei por Buenos Aires, mas ao invés disso segui treinando e ainda resolvi praticar uma arte marcial de impacto direto sobre minhas pernas. O foda de ser ateu é que não dá pra encontrar culpados extras ou “escritas certas sobre linhas tortas” detrás dos erros cometidos unica e exclusivamente pela minha mania de achar que posso tudo.
Escrito por Ricardo Martins às 02h05
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