Roda América


Hospitalidade Uruguaia, uma vez mais

Começo a empreender a viagem de volta para Buenos Aires, com o detalhe de ter em meus bolsos apenas o equivalente a 70 centavos para completar os 450 km que me restam (o equivalente a distancia entre RJ e SP). Para isso, obviamente terei que abandonar o prosaico método da compra, mas fora isso não vejo grandes problemas para completar essa parte da aventura.

Já dizia o sábio Murphy que as coisas dão errado justo quando não podem dar. Devido a muitos dias de calor intenso na estrada, o pneu e a câmera da Capitu explodiram, sendo que eu não tinha grana pra consertar nem um nem outro, aliás eu não tinha grana para nada mais do que uns 4 pães. Caminhei algumas horas até o povoado mais próximo buscando um lugar pra consertar a roda da Capitu até que um jovem se ofereceu pra me acompanhar até a loja de bicicleta mais próxima. Chegando na loja, expliquei que estava a alguns dias viajando pelo Uruguai e que estava ao fim dessa parte da viagem, e que por isso eu já não tinha mais dinheiro para pagar nada (mentira, pois desde o começo da viagem no Brasil, há 1 ano e meio atrás, eu não tinha dinheiro pra nada). Num descontraído bate-papo, em que conversamos sobre minhas idas e vindas pelo Uruguai e pela América do sul, o dono da loja de bicicleta me disse:

- Relaxa que a gente dá um jeito, brasuco (é uma forma de se referir bem informalmente a um brasileiro). Você tá na mão de um uruguaio e ciclista, e em ambos os casos jamais deixamos na mão alguém que precisa de ajuda.

O cara tirou dos fundos da loja um pneu e uma câmera já usados e colocou na Capitu sem me cobrar nada. Os caras da loja eram da federação de ciclista do clube Peñarol (um dos times de futebol mais tradicionais do Uruguai), e em troca apenas pediram para que eu colocasse um adesivo deles na Capitu. Eu colocaria um adesivo deles até na minha testa se fosse necessário. Agradeci imensamente e segui viagem com minha roda nova, que não era tão nova assim mas que agüentaria pelo menos uns mil quilômetros mais.

Pela tarde parei pra encher as minhas garrafas de água numa casa na beira da estrada perto de Maldonado, quando fui agradavelmente recebido por uma numerosa família uruguaia. Enquanto eles colocavam água fresca com gelo (“ta muito quente lá fora, menino” dizia a mulher que enchia a garrafa), um deles me perguntou se eu queria comer com eles. CLARO, disse eu, já sem conseguir esconder a imensa fome que ocupava meu vazio estomago.

- Pois bem, agora você vai comer um legítimo macarrão caseiro uruguaio, que fizemos hoje de manhã e acabamos de cozinhar, sortudo!

Me serviram dois pratos cheios de talharim “Al pesto” e outro ao molho branco com champignon.  Conversamos animadamente por mais de uma hora sobre as divertidas histórias da numerosa família que me abrigava. Me despedi com

uma saudade antecipada, com a barriga cheia e a alma leve.

Em um mesmo dia fui salvo de interromper a viagem e de passar o dia com fome. Para isso não tive que pedir nada, apenas me preocupei em fazer amigos em cada lugar onde parei. Tenho medo de cair em repetição extrema ao relatar a hospitalidade uruguaia, porém isso é algo que ocorre diariamente em múltiplos pontos do país. Tenho apenas algumas poucas moedas em meu tradicional bolso vazio, porém ao meu lado tenho quase que um país inteiro disposto a me ajudar no que for preciso para que os meus dias no Uruguai sejam os melhores possíveis. Não, definitivamente não tenho medo por estar ao lado deles.

Família Uruguaia

 



Escrito por Ricardo Martins às 20h53
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