Numa praia perdida no leste Uruguaio, eis que encontrei uma colônia com mais de mil lobos marinhos. Tentei escrever e reescrever alguns textos para descrever o que senti e vi, até que percebi que neste caso um vídeo falaria por si só. Espero que curtam tanto quanto eu
Águas verdes e limpas, dunas fantásticas que se movem e mudam a paisagem diariamente, mais de mil leões marinhos no mesmo lugar, gente humilde e amável, baleias e golfinhos na água... Se eu pudesse construir o meu paraíso, seguramente colocaria todos estes itens de Cabo Polónio (claro, misturando com as 100 virgens dos muçulmanos, uma quantidade infinita de açaí e uma máquina de sopa de ervilha. rs).
Nesse paradisíaco lugar – Cabo Polónio, não esse das virgens - eu havia marcado de encontrar com um amigo italiano e Daniela (a paixão argentina, pra quem não se acostumou com o nome). Nadamos com golfinhos brincando ao nosso redor, surfamos (quer dizer, tentei mas não fiquei em pé na prancha), jogamos futebol com os pescadores, ficamos a centímetros de leões marinhos. Era acordar, aproveitar um dia perfeito, dormir imaginando o seguinte dia perfeito.
Nos juntamos com um casal de franceses numa casinha pra passar o natal. A argentina se encarregou do churrasco de ceia, os franceses fizeram o fondue e o italiano cuidou dos vinhos para a grande noite. Iluminados apenas com a luz da lareira, conversamos e comemos como se nos conhecêssemos desde pequenos. Uma magia especial recobre tudo o que é feito em Cabo Polónio.
Coloquei meu relógio para despertar cincos minutos antes de meia noite, quando saí com a Daniela e colocamos meu saco de dormir na beira da praia até dar meia noite. Quando chegou a hora, lembro de um céu estrelado como eu jamais havia visto, um sorriso lindo, um abraço apertado e votos de feliz natal sussurrados ao pé do ouvido. Até hoje meu relógio desperta 5 minutos antes da meia noite, pois entre Daniela e eu é a hora que temos pra recordar uma noite perfeita de natal. Nesse dia chorei emocionadamente, e agora diariamente tenho os 20 segundos do meu alarme pra lembrar com uma gostosa nostalgia do melhor natal da minha vida.
Desde que saí de Buenos Aires, a única recomendação que eu tinha era conhecer a Cabo Polônio, uma paradisíaca praia perdida no leste uruguaio, um santuário ecológico cheio de leões marinhos, onde carro não passava. Ok, achei legal esse negócio de carro não passar, até descobrir o porquê disso.
O que acontece é que a praia fica há 15 quilômetros de dunas desde a estrada principal, por isso o trajeto pode ser feito somente por caminhonetes 4X4 cadastradas pelo governo Uruguaio. Por razões de preservação ambiental, qualquer pessoa que entra é cadastrada e recebe algumas recomendações. A melhor delas estava escrita numa plaquinha de madeira velha e é um clássico entre viajantes:
“Não deixe nada, apenas pegadas. Não leve nada, apenas memórias. Seja bem-vindo ao lar de animais, pescadores e agora seu também.”
Lendo ao aviso crescia minha ansiedade de chegar em Cabo Polônio, mesmo que ainda não me tivesse dado conta do que seria passar 15 km de dunas cruzadas somente em 4x4. Eu, com minha humilde tração 2X2 (duas pernas minhas e duas rodas da Capitu), demorei mais de 8 horas pra cruzar tudo. Eram dunas impedaláveis, por isso eu tive que carregar a Capitu nas costas. O que me deixava puto era que de 10 em 10 minutos passavam caminhonetes cheias de turistas que tiravam foto de mim enquanto eu caminhava gritando de dor, cheio de areia por todo o corpo e caindo a cada quilometro. Alguns até gritavam frases de apoio em inglês ou até jogavam uma garrafinha de água, mas no geral ficavam me sacaneando mesmo. Sempre fico puto com esses turistas de meia tigela, porem era mais importante seguir e completar meu objetivo, até porque escurecia e eu estava no meio do nada.
Enfim, passei. Doeu, mas passei. Cansou, mas passei. Achei que não daria, mas deu. Aliás, como sempre.
Já de péssimo humor desde Canelones, preferi pedalar uns quilômetros mais para encontrar um povoado mais isolado. Pedalei até ver o ritmo do campo se aproximando, me indicando que era hora de parar, sabe-se lá onde. Meio que longe de tudo, numa casinha que parecia parar no tempo, conheci o simpático “Seu Rodriguez”.
Não tive que pedir um lugar para acampar nessa casa, apenas parei pra conversar e tudo meio que se acomodava como que coordenado por uma empatia mútua inexplicável. Ao final de umas 3 horas de conversa, caiu a noite e ele pediu pra eu ficar por ali. O Seu Rodriguez tem 82 anos e vive sozinho desde os 40, e nesse ínterim viveu e inventou muitas histórias sem ter para quem contar, talvez daí venha nossa inusitada empatia mútua, pois eu estava ávido por escutar suas histórias tanto quanto ele por contá-las.
As histórias do Seu Rodriguez tinham um ar de realismo fantástico do Garcia Marques, narradas em um tom quixotesco de um velhinho que repetiu suas fantasiosas histórias até o ponto de acreditar nelas. Num tom meio mágico e épico, escutei histórias de um menino que foi criado numa caixa de sapato e parou de crescer, fantasmas de velhos boiadeiros que assustavam o gado, mulheres que pariam 3 filhos por ano, lendas do povo uruguaio e incontáveis histórias que me comoviam pela simplicidade com que eram contadas. Precisaria escrever um blog aparte pra detalhar tudo o que escutei nessa longa noite, e sinceramente penso nessa possibilidade.
Embalados por vinho caseiro e um bom mate uruguaio, o papo foi alongando até vermos o sol despontando no horizonte. Numa cumplicidade mútua que não sei explicar, nos servimos de um copo mais de vinho e brindamos ao sol que nascia. O momento foi eterno, assim como suas histórias que agora serão passadas por mim.
Meio embriagado por contos e vinhos, deitei na minha barraca com uma estranha sensação de nostalgia de uma pessoa que eu havia conhecido há poucas horas atrás. Com uma imensa paz que me invadia o peito, ecoava por meus ouvidos a voz quixotesca do seu Rodriguez, enquanto meus olhos viam gaivotas que dançavam sobre as nuvens e meu olfato era inundado por um cheiro de terra molhada que anunciava a chuva que estava por vir. O sono vinha e eu não queria me arriscar a dormir e perder aquele momento.
Nesses momentos me dou conta do quanto é difícil passar o que vivo viajando por esse mundão. Não há foto que mostre bem o arco-íris agora que me cobre, não consigo registrar esse cheiro de mato e chuva, nenhuma palavra parece suficiente para explicar a felicidade que me invade sem muita explicação. Aliás, minha vida ganha mais sentido na medida em que vou perdendo as explicações para as coisas.