Roda América


Canelones, Uruguay - Essa tal vida moderna...

Devido ao último dia cansativo que tive, pedalei somente 50 km pra poder descansar em alguma pacata cidade por aí. Assim cheguei a Canelones, uma cidade que fica a 50 quilômetros da capital do país, e que por isso sofre dos tradicionais males causados pela suposta civilização.

Como quem tristemente diagnosticava um câncer social, sentia meus ouvidos enlouquecendo paulatinamente com buzinas e gritos, enquanto meus olhos decepcionadamente viam os campos verdes sendo aos poucos trocados por uma massa disforme e depressiva de concreto e demais coisas de cor cinza. Observava pessoas apressadas que corriam tanto sem bem saber por que o faziam, lixo por todo lado, propagandas tornando imprescindíveis coisas inúteis e etc. Aliando toda essa sinestesia e mais uma espécie de sensação coletiva de perigo iminente, como se houvesse um serial Killer em cada esquina, penso que não precisaria de mais sintomas para descrever o que chamo de câncer social. “Sim, nesse mundo tem muita gente má”, escutei uma mulher dizendo à vizinha enquanto trancava sua porta com 3 chaves diferentes.

Meio atordoado, segui andando até tomar coragem pra fazer a primeira parada em Canelones com a Capitu. Logo veio um menino com seus nove anos pedindo pra cuidar da bicicleta em troca de algumas moedas. Puxa, sei que parece normal para muitos, mas no meu caso fiquei chocado em ter que pagar simplesmente para ter comigo o que já é meu. No Uruguai eu havia conhecido várias outras cidades mais caipiras e pouco evoluídas, em que as pessoas viviam de forma muito retrógrada, deixando a porta de casa aberta ou o carro com a chave na ignição sem que alguém os roube. Pois bem, paguei a tal moeda e entrei num bar para lavar meu rosto meio sujo de graxa.

 

- Che, posso usar o banheiro um momento, por favor? – Perguntei ao dono do bar

- Olha, aqui não tem banheiro não, meu jovem...

 

Vendo ao fundo uma placa que dizia “banheiro”, segui perguntando.

 

- Mas aquilo ali num é um banheiro?

- É sim, mas ta trancado.

 

Claro que percebi a má vontade do impassível dono do bar, mas queria ver até onde aquilo iria e resolvi seguir perguntando:

- Ah, entendo, obrigado. Mas o senhor não tem a chave pra abrir?`

- Tenho, mas é só pra clientes!  - Respondia o já não tão impassível senhor.

 

Pensando no quanto parece ser cruel e prejudicial a um negócio lavar o rosto em um banheiro, me despedi do simpático senhor com um cordial “Tenha um bom dia”. Peguei e Capitu e segui andando. Encontrei jovens que conversavam excitadamente sobre o último celular anunciado num outdoor, vi pais almoçando olhando à TV enquanto ignoravam os próprios filhos que em vão tentavam dizer como lhes havia sido o dia na escola, vi velhinhos que jogavam pão aos pombos enquanto ao lado alguém pedia comida. Sim, de fato parece cruel ver cenas assim, porém mais cruel ainda é saber que as coisas não são lá tão diferentes em qualquer cidade clássica assolada pela tal modernidade. Mais do que isso, cruel é perceber que muitas vezes fazemos o mesmo e não nos damos conta. Meu maior bem adquirido foi o resgate da crença na raça humana, por isso ainda me recuso a crer que as coisas precisam de fato ser assim. Aliás, já há muito tempo constatamos que o ser humano não está fadado a ser fruto do meio, então não sei por que raios agimos como se não houvesse escolha pra tudo isso.

 

Nessa ótica em que o normal ao meio é sempre correto ou aceitável, qualquer coisa descabida ganha o respaldo social que a torna legítima. Pensemos no quanto aceitamos fome, poluição, corrupção e por aí vai. Ok, se de fato tudo isso for aceitável, não faz sentido apontar o dedo sujo aos que apedrejam em praça pública a mulher infiel, mutilam clitóris por aí ou demais anormalidades desses seres humanos de hábitos pouco aceitáveis. Sendo assim, não deixemos muito longe esse apedrejador e mutilador dos que aceitam o engravatadinho que “Rouba mas faz”, pois parece que atualmente o martelo que define o certo e o errado é simplesmente o que a maioria faz.

Me parece  que os moldes da sociedade global apontam para que cada um olhe somente a si mesmo, deixando a vida carente de alguém que olhe por nós. Bingo.  Aí entra Deus, olhando por nós enquanto fazemos exatamente o mesmo.



Escrito por Ricardo Martins às 19h01
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