Extremos da estrada
O dia foi de pedalada muito complicada. Além do já normal sobe desce na estrada, o vento forte me castigava de tão forte e frio que estava, cortando-me com a poeira forte que batia sobre meu rosto sujo. Pra deixar as coisas mais emocionantes ainda, o pneu da Capitu furou de forma bem difícil de consertar. Pois é, há dias em que tudo tem que dar errado, e pra dizer a verdade eu gosto disso e acho que é o que dá um gostinho especial à aventura. Ok, penso nisso quando o perrengue passa, não vou mentir... Uma troca de câmara de ar normalmente é algo muito fácil de ser feito, mas dessa vez o pneu furou na única parte onde o remendo é quase impossível. Pra completar a bossa, descobri que a bomba de ar estava quebrada. Faltavam-me 53 quilômetros pra chegar à próxima cidade, sendo que parte do trecho teria que ser feito caminhando, pelo menos até achar alguém que me possa ajudar a trocar o pneu da Capitu, pobrezinha. Depois de 2 horas caminhando, encontrei um casal de velhinhos que me presenteou com uma câmara nova, assim que agradeci e me aprontei pra seguir o caminho, mesmo sabendo que já quase escurecia e me faltava um pouquinho de estrada até a próxima parada. Sim, sei que isso poderia ter sido evitado se eu tivesse uma câmara de ar reserva, porém obviamente esqueço de tudo, e pra completar aprendi a curtir os imprevistos causados por meus próprios deslizes. (Crianças, não tentem isso em casa! Sou um idiota, que fique bem claro.) O vento estava ficando cada vez mais forte, na mesma proporção em que aumentava meu cansaço físico e psicológico. Enquanto eu tentava vencer o vento, gritava bem forte de raiva e de dor enquanto os músculos da minha perna adormeciam paulatinamente. A noite caía, eu já não sentia mais a batata da perna, fazia frio, minha água havia acabado, mas enfim, faltava pouco pra chegar até a próxima cidade e descansar tranqüilo. Como resultado de minha teimosia, lá pelas 10 da noite cheguei ao povoado de São José, onde comecei desesperadamente a buscar algum lugar pra dormir por umas quantas horas. Já caminhando torto e vendo tudo meio embaçado devido ao cansaço extremo, fui pedir água para uma família que conversava no quintal de uma casa. Ficamos um tempo conversando e nos demos muito bem, até que a mãe da família foi me oferecendo comida de tudo quanto é tipo e de quebra um lugar tranqüilo pra armar a barraca. Puxa, que gente amável... Comi uma macarronada caseira, tomei banho e fui dormir, pois meu estado físico deplorável não me permitia outra coisa, mas no dia seguinte pretendia passar mais tempo com meus novos amigos uruguaios. No dia seguinte, acordei com café da manhã, estoque de água congelada pra levar no caminho e um montão de gente querendo escutar as minhas histórias. Puxa, jamais me pedem nada em troca pela tantas coisas que recebo, somente histórias, amizade e respeito, nada mais. Pode parecer piegas, mas uma lágrima furtiva e incontida acaba de manchar esta página de meu diário de bordo... Puxa, com o passar do tempo vou construindo e fortificando meu orguho pela raça humana. Conheci essa gente há não mais do que 12 horas, mas é incrível como agora cada uma das faces que vejo me parece familiar. Pensando agora sobre essa gente que conheci, reflito sobre os chatos que ficam me perguntando se quero fazer história através do que vivo nessa viagem. Não viajo para fazer história, mas sim para fazer amigos.
Escrito por Ricardo Martins às 04h47
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