Roda América


Uruguai - Primeiros amigos e impressões

Nos planos iniciais eu pretendia parar num povoado que ficava a 80 km de distância da fronteira com a Argentina. Apenas com 30 km caminhados, me deparei com uma simpática e pacata cidade chamada Mercedez. Sobre o lindo e fresco Rio Negro, vi pessoas caminhando tranquilas e me cumprimentando, meninos jogando bola pelas calçadas. Mais do que a distância pedalada, me importa uma espécie de energia que os lugares emanam sem que muitos percebam, assim que fui estacionando minha fiel escudeira e buscando um lugar pra acampar.

 

Rodei uns 15 minutos ou menos até me deparar com uma empresa de sementes à beira do rio, cujos donos estavam entretidos adubando um futuro campo de futebol para os funcionários. Gostei da cidade, gostei da atitude humana dos donos, logo parei pra bater um papo. Agora nessa história pela América Latina entra o primeiro personagem uruguaio: Augustín, um pacato e simpático novo amigo, exatamente como sua cidade e seu país haviam sido comigo neste primeiro dia em novas terras.

 

Contei minhas histórias, ele contou as dele, ambos nos impressionamos mutuamente. Ao fim de um longo papo comentei que Mercedez era a primeira cidade onde eu parava no Uruguai, e que ele era o primeiro no país com quem eu parava pra conversar. Após isso, Augustín deu um salto ligeiro, quase involuntário, e me disse com muito entusiasmo: “Agora você vai entender porquê nós no Uruguai somos tão amáveis e nos orgulhamos tanto do nosso país, mesmo que alguns façam o contrário. Vou ser seu guia e amigo enquanto você estiver na minha cidade”.

 

O país já me ganhou. Me apaixonei pelo Uruguai, como se meu mundo agora se extendesse a esta nova casa pelos pampas.

 

Augustín pegou seu carro, chamou sua esposa por telefone e fomos os três pelos principais pontos turísticos da cidade. Me mostraram castelos perdidos, ilhas pequenas, lugares de personagens lendários uruguaios e muitas outras coisas. Enquanto isso, ambos me contavam histórias do povo uruguaio. Ao fim do dia Augustín me disse: “Che, você não pode chegar no Uruguai sem comer un buen asado!” (como chamam o churrasco típico aqui e na Argentina). Con más hambre que el Chavo (com mais fome do que o Chaves, como dizem por aqui ao morto de fome), aceitei imediatamente o convite e me fartei com um magnifico banquete que me ofereceram, com direito a muitos tipos de carne, sobremesas e histórias que agora marcam minha memória definitivamente. Sinto como se fosse possível escrever um livro somente com as histórias que me contam enquanto eu vivo as minhas.

Terminamos e eles me levaram até a minha barraca, perguntando cheio de cuidados se faltou algo pra que eu desrutasse mais da cidade e da companhia deles. Agradeci emocionadamente e fui dormir. No dia  seguinte, acordei e tomei café com Augustín e os empregados da empresa, numa mesa redonda em que não se distinguia o dono do gerente ou o faxineiro, ou até do inusitado pedaleiro que os observava ávidamente. Todos me deram um monte de água gelada pra beber durante o dia (lembrando que água gelada é o grande artigo de luxo de quem pedala o dia inteiro no sol e sem dinheiro). Minha vontade, guiada cada vez mais por um coração mole que não tem mais remédio, pedia para que eu ficasse por Mercedez, mas minha curiosidade em conhecer os novos caminhos e as novas pessoas pelo Uruguai dessa vez venceu a batalha. Pé na estrada, hermanos..

Quanto mais países conheço com minha fiel Capitu, mais vejo que o compay Guevara estava certo ao dizer que somos “uma só raça mestiça desde o México até o estreito de Magalhães”. Me arrisco em dizer que somos uma só raça humana desde qualquer lugar até qualquer lugar, uma vez que não posso tomar como ponto de partida um mundo que sabidamente é redondo. Com o tempo, as pessoas pelo mundo me parecem curiosamente muito iguais e diferentes entre si, uma vez que sempre haverão divergências e coisas que nos unen. O que faço, graças ao que as pessoas têm feito por mim, é me preocupar com as muitas coisas que nos unem.

Veremos o que me espera nas novas terras uruguaias. Melhor primeira impressão impossível.

Agustín, o primeiro amigo uruguaio

Augustín

 



Escrito por Ricardo Martins às 02h27
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