Roda América


A ponte proibida

Acampei num posto policial perto da estrada, num lugar onde descansavam cavalos e cachorros. Os policiais foram muito hospitaleiros e amáveis todo o tempo, me oferecendo a cada 5 minutos mate ou algo de comer. Já com as energias recarregadas, segui para cruzar os últimos poucos quilômetros que me separavam do Uruguai.

Os policiais me disseram que a ponte entre a Argentina e o Uruguai está fechada há mais de 2 anos, sendo que a fronteira mais próxima ficaria há uns 180 quilômetros mais. A briga que fechou a fronteira foi originada quando uma fábrica de papeis européia decidiu instalar-se na beira do rio que separa os dois países, no lado Uruguaio. A Argentina, que mesmo baixo protesto possui papeleiras que sujam seus próprios rios e o próprio Uruguai, imaginou que um tratado entre os dois países  teria mais peso do que o dinheiro num sistema capitalista - que não por concidência começa com a palavra "capital". No outro lado da ponte, os Uruguaios aparentemente pensavam que era questão de soberania nacional deixar uma empresa estrangeira instalar-se em seu próprio território, sujando suas águas e deixando um lucro que sequer pagaria os danos causados ao meio ambiente. Conclusão: Perdeu a Argentina, perdeu o Uruguai, ganhou uma pobre multinacional do pobre continente europeu. E no meio disso tudo entraria um magrelo de bicicleta, tentando explicar que não tinha nada a ver com a briga alheia.

Esperando ter que dialogar com policias armados, parti eu com minha fiel escudeira. A violenta e hostil barreira era ocupada por dois velhinhos simpáticos que tomavam mate numa cadeira de balanço. Descobri que eles queriam mais do que tudo apenas serem escutados, então me sentei com eles pra tomar um bom mate e ouvir o que motivou aqueles anos de briga entre os dois países. O último que conseguiu cruzar essa ponte teve que fazer uso de liminares judiciais e quase foi linchado, mas ao invés disso simplesmente parei pra descobrir mais a fundo o que motivava tudo aquilo. Não concordei ou discordei, apenas respeitei a opinião de quem dava a vida por uma causa na qual acreditava.

Passei pela temida ponte, encontrando em seguida uma cidade fantasma, com um posto de imigração que já há muito tempo não via pessoas chegando. Ninguém acreditava que eu tinha passado. Eu teria que pagar uma multa por exceder os 90 dias na Argentina, porém minha fama instantânea foi utilizada para facilmente passar sem encargos adicionais. Pensaram que eu era um cara valente, coitados. Acho que valentes todos antes tentaram ser, por isso a grande novidade praticada por mim foi ser um pouco mais humano. Acho que descubro na prática o sonho perdido do dia em que o diálogo substituiria a guerra - não é tão difícil assim.

 Video: Cruzando a ponte proibida

Cruzando a ponte proibida



Escrito por Ricardo Martins às 18h04
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