Os mosquitos ninja
Argentina - Entre rios, Ceibas.
A maior aventura do dia não foi exatamente digna de contos épicos, risco de vida ou experiências extremas, como todo mundo espera que seja na minha viagem. O grande momento do dia foi minha homérica batalha com 5 mosquitos que entraram na barraca pela noite. Na verdade eu acho que se tratava de 1 mosquito, com habilidades especiais de regeneração e multiplicação, mas enfim.
Eu diria que essa região da Argentina desenvolveu uma raça de mosquitos ninja, que aparentemente me atacavam com táticas militares inspiradas na guerrilha colombiana - vejam só o que é a globalização. Os mosquitos filhos da p*, com todo respeito à dona mosquita, se aproveitaram militarmente da noite, pois eu conseguia vê-los somente de relance com a lanterna, e com isso eles foram fazendo banquete de Ricardo. Como eu os via somente por um instante com a lanterna - quando os via - era difícil de dar um tapa nos bichos, e nisso perdi mais de 1 hora frustradamente tentando matar meus oponentes. 1 X 0 para os mosquitos, o time visitante.
Sentindo minha desvantagem em combate, resolvi utilizar minha vantagem intelectual, que por mais básica que fosse tinha a possibilidade de superar a de alguns mosquitos. Tirei da mochila meu desodorante aerosol, imaginando que o álcool os mataria ou os deixariam desacordados para o golpe final. Atingia os mosquitos e eles continuavam voando, até que meu desodorante quase acabou e eu já estava sufocado dentro da barraca enquanto eles seguiam voando. Saí da barraca, eles continuavam lá dentro. 2 X 0 para os mosquitos. Me ganharam até intelectualmente, que humilhação...
Entre humilhado e humilhado e meio a diferença é muito pouca, então adotei a tática de "pensar como o meu oponente", mesmo que ele seja um mosquito. Imaginei que os bichos uma hora se cansariam de voar e precisariam descansar em algum lugar, talvez nas paredes da barraca. Bingo!! Passei a iluminar com a lanterna somente as paredes da barraca, onde eles ficavam parados tempo suficiente para que eu disparasse meu mega golpe mortal - ok, um tapinha bastava, mas era questão de honra uma morte mais dolorosa aos meus adversários alados. Usando de minha tardia vantagem intelectual consegui matar a todos os 5 mosquitos ninja! 5 X 2 pro time da casa. Vitória esmagadora, literalmente.
Acho que ao viajar sozinho acabei desenvolvendo a estranha e aparentemente inútil habilidade de me divertir com absolutamente qualquer coisa...
Escrito por Ricardo Martins às 21h34
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Compromissos de viagem
Planejei sair pra pedalar lá pelas 5 da manhã, para com calma chegar até o mais próximo possível da fronteira com o Uruguai. Mudei de planos já ao acordar, por motivos que não poderiam ser ignorados.
Despertei ao som de pássaros de muitas espécies cantando. Abri os olhos e senti uma fresca brisa matutina que entrava pelas frestas da barraca, me convidando a esticar os braços e respirar um pouco de ar puro. Saí e dei de cara com um sol que recém despontava no horizonte sobre o rio. Sem pensar muito, tirei toda a roupa e me atirei no rio, gritei bem alto até perder o ar, nadei até cansar e deitei na grama pra olhar o céu, sentindo o vento fresco que secava meu corpo e massageava meus sentidos.
Puxa, como é bom não ter pressa. Fui boiando pelo rio como se o tempo não existisse, tendo como única meta fazer isso até cansar - e não cansei tão cedo. Já esgotado pela difícil tarefa, me pus sobre a beira do rio para ler um pouco e escrever estas breves linhas que agora compartilho com vocês. Não tenho nada, mas tenho tudo. Que vidinha besta essa, sô...

Escrito por Ricardo Martins às 15h41
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Pedalada café com leite
Argentina, Zárate.
Pelo visto terei uns 300 km pelos pampas argentinos, com estradas planas e retas, asfalto e tempo sem chuva ou neve. Depois dos andes bolivianos, encontrar simultaneamente planicie, bom tempo e asfalto eram coisas aparentemente inexistentes para mim.
Escrevo agora de Zárate, no estado de Entre Rios. Esta pacata cidade do nordeste argentino que se perde entre imensos rios e árvores. Me acostumei a armar a barraca com ventos fortes e morrendo de frio ou de calor, cuidando pra que não entrassem animais não tão amistosos como cobras e escorpiões. Agora terminei tranquilamente de armar a barraca e colocar a Capitu com suas coisas, pronto pra tomar um bom banho de rio. Com o cair da noite, iluminado por minha modesta lanterna e por uma melancólica lua cheia, descansei tranquilo pra recuperar as poucas forças perdidas durante o dia.

Depois do primeiro dia, me parece que administrar as dificuldades será mais fácil do que imaginei. Tenho quase toda certeza de que meu otimismo será cabalmente desafiado e vencido nos próximos dias, e justamente essa sensação me excita a seguir rumo às novas aventuras que virão.
Escrito por Ricardo Martins às 03h29
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A vida que desascelera
Argentina, Zárate.
Escrevo depois de meu primeiro dia de pedalada rumo ao Uruguai, país até então desconhecido por mim até pelos livros. Uau, como é bom sentir novamente o vento que beija o rosto e a liberdade que invade os sentidos por todos os poros. Algumas sensações só a estrada me dá.
Lentamente vou me distanciando de Buenos Aires, sentindo que as pessoas e as paisagens vão mudando na mesma velocidade de meus calmos quilômetros com a Capitu. Parece que nas metrópoles o tempo passa rápido demais, por isso as pessoas correm em todos os lugares para não serem atropeladas pelo relógio, que cruelmente afaga e devora através da rotina.
Lentamente, vou sentindo a gostosa sensação de que a vida desascelera...
Recordo os meus tempos de metrópole carioca, onde eu ficava feliz quando notava que o tempo passava rápido, ou quando deixava meu relógio certo até nos segundos para evitar perdas de tempo. Brutal perda de tempo se preocupar tanto em não perder tempo. Não me preocupo mais se o tempo demora ou tarda, pois o relógio corre no mesmo ritmo sem se importar muito com minha opinião sobre sua velocidade. Ao invés de optar pelos clichês de spam em powerpoint, daqueles que dizem pra “aproveitar cada segundo que passa” e etc, vou aprendendo a simplesmente a viver os segundos sem me preocupar com eles. Sei lá, é só tempo, vejo coisas mais importantes.
Não sei onde estarei, o que serei ou o que farei daqui a 10 anos, como as sábias bulas dos livros de auto-ajuda mandam a gente fazer. Talvez minha única meta seja viver a vida bem e com intensidade, e quase sempre mudo os meios para atingir isso. Aliás, nada melhor do que aproveitar a imprevisibilidade das coisas e de mim mesmo.
Escrito por Ricardo Martins às 03h23
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