Roda América


Em busca do novo primeiro passo

No meu caso, lesionar o joelho se trata mais de uma batalha psicológica do que física. Mais do que meu corpo, minhas pernas movem meus sonhos, por isso tem sido difícil superar minha temporária incapacidade.

Primeiro foi a cadeira de rodas: Algumas atividdes que antes eram simples passaram a ser impossíveis para mim, tais como colocar o sapato, subir escadas, ou simplesmente ir ao supermercado que fica a duas quadras de onde eu vivo. Além da dificuldade de passar por calçadas esburacadas e demais detalhes antes imperceptíveis para mim, passei a ter um certo medo de sair pra rua e ver como as pessoas supostamente me olhavam. Creio que mais do que como as pessoas me olhavam, a forma depressiva com que eu olhava a mim mesmo era o que de fato tornava as coisas mais difíceis do que de fato deveriam ser. Mesmo que soe patético, confesso que chorei quando olhei pra minha fiel escudeira Capitu e me dei conta de que pela primeira vez eu não poderia acompanhá-la  e desbravar o mundo como antes costumávamos fazer.

No primeiro momento estive bem longe de ser um cara forte, mas aos poucos vou recuperando o joelho e a auto estima. Desculpem por decepcionar mais uma vez aos que me idealizam como um aventureiro destemido, porém cada mais vejo que minha força vem das pessoas incríveis que tenho ao meu lado quando fraquejo. Nesse caso, preciso agradecer imensamente a todos os argentinos que estiveram constantemente comigo (apesar da sova que o Brasil deu na Argentina nas eliminatórias), e especialmente à sempre citada Daniela, que foi o motivo da minha mudança de planos ao vir pra Buenos Aires e dia após dia faz com que eu veja o quanto fiz a coisa certa. Ela foi minha perna enquanto eu não podia usá-la, minha calma nos momentos de depressão e um abraço forte quando perdia as esperanças. Enquanto escrevo essa parte do texto, noto uma lágrima furtiva que me cai ao lembrar dessas pessoas, e mais uma vez até nessa parte difícil percebo o quanto essa viagem é importante para mim.

Enfim, momentos “mela cueca” à parte, pouco a pouco vou me recuperando. Tenho boas chances de por milagre escapar da opecação, estou com um imobilizador no joelho, evoluí da cadeira de rodas para as muletas e lentamente vou recuperando os movimentos básicos da perna. Se tudo correr bem, tenho programado tirar o imobilizador em 30 dias, fazer fisioterapia por uns 2 meses e seguri com exercícios graduais até reaprender a andar, correr e finalmente pedalar. Tinha o único plano de aprender o que fosse necessário pra viver bem e ser uma pessoa melhor, mesmo que isso signifique simplesmente reaprender a andar. 

Lembro agora de tudo o que tive que enfrentar quando essa viagem era ainda apenas um sonho distante. Lembro que o difícil não foi imaginar os apuros que viriam, mas sim dar o primeiro passo ao deixar toda a minha vida para trás e construir uma nova. Agora só preciso me preparar para um novo primeiro passo, neste caso no sentido literal da palavra mas felizmente igual aos muitos outros que viráo pelo caminho.

 



Escrito por Ricardo Martins às 04h59
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Roda América em duas rodas. Cadeira de rodas, aliás...

Todos sabem que meus joelhos davam sinais de desgaste já desde um bom tempo atrás, desde antes de que eu começasse a viagem. Quatro meses antes de começar a viagem, torci o joelho numa partida de volei, mas resolvi que poderia seguir. Um ano depois, fraturei gravemente o mesmo joelho na Bolivia, mas também resolvi que poderia seguir. Agora, dois anos depois, lesionei de forma mais séria o mesmo joelho, e a temporária cadeira de rodas me fez notar que chega finalmente a hora de parar de brincar de ser super homem.

Em Buenos Aires comecei a lutar Taekwondo, muito empolgado com meu rápido avanço e uma pequena coleção de nocautes contra gente de faixas mais avançadas do que a minha. Eu era apenas um reles faixa branca, tombando adversários aos montes e orgulhoso de ver que havia descoberto um potencial mais em mim. Eis que em uma luta não oficial, a primeira depois de ter passado de faixa, tentei dar um chute giratório. O pé de apoio permaneceu estático no solo, enquanto o restante da perna girava para completar o chute, fazendo com que meu joelho esquerdo (o de sempre) desse uma volta de 180 graus. Fora do tatame foi possível escutar o estalo do joelho, acompanhados de meus gritos alucinados e desesperados enquanto eu me debatia pelo chão. Entre as muitas experiências e sensações da viagem, eis que acrescento mais uma pra coleção: Dor, muita dor, como jamais imaginei que poderia sentir.

Estirado sobre o tatame, minha visão começava a escurecer, o que me deu a curiosamente agradável sensação de que um desmaio poderia vir a fazer a dor parar, mas não. Via pessoas correndo por todos o lados em busca de gelo, médico, Deus ou o que fosse, enquanto eu chorava já não mais somente de dor, justo porque imaginava as consequências dessa lesão. Em um filme mental imaginei muletas, sala de operação, fisioterapia e um potencial risco de ter que abandonar meu sonho de seguir viajando. Não sei muito bem o que vai acontecer nos próximos dias, porém agora já mais calmo sei que seguirei viajando, passe o que passar, nem que eu tenha que adaptar uma bicicleta e pedalar com os braços.

Tenho a total responsabilidade de tudo o que me passou. Eu poderia ter cuidado e operado o joelho, mas nao o fiz. Poderia ter decansado mais tempo, mas ao invés disso pedalei uns dois mil quilômetros mais e ainda por cima resolvi fazer triatlon. Poderia ter sossegado o rabo pra fortalecer o joelho enquanto parei por Buenos Aires, mas ao invés disso segui treinando e ainda resolvi praticar uma arte marcial de impacto direto sobre minhas pernas. O foda de ser ateu é que não dá pra encontrar culpados extras ou “escritas certas sobre linhas tortas” detrás dos erros cometidos unica e exclusivamente pela minha mania de achar que posso tudo.

 



Escrito por Ricardo Martins às 02h05
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Punta del Leste à venda

 

De longe pela estrada eu via luxuosos prédios que cortavam o meu até então inabitado céu azul, indicando-me que se aproximava a tão falada cidade de Punta del Leste. Normalmente a altura dos prédios de uma cidade é inversamente proporcional ao tamanho da amabilidade alheia. Enfim, poderia ser somente um preconceito, mas não.

Na entrada da cidade, entre os muitos outdoors havia o de uma imobiliária que dizia “Punta del Leste à venda”. Isso para mim sintetizou o que vi em cada canto, onde cada centímetro é vendido a quem possa pagar bem por ele. Definitivamente nem a beleza nem a amabilidade eram coisas gratuitas, e muitos menos eu podia ou queria pagar por isso. Vi praias em que as pessoas mais se exibiam do que se banhavam, mais ostentavam do que desfrutavam, ou o pior é que desfrutavam enquanto ostentavam. Uma pena ver uma cidade tão linda, palco de discursos de líderes que mudaram minha forma de pensar sobre o mundo, hoje simplesmente rebaixada a um lugar superficial qualquer.

A noite caiu e fui buscar um lugar pra acampar, porém descobri que as empresas de camping pressionaram para proibir o camping nas florestas para não interferir no lucro deles (cada centímetro à venda, lembram?), isso sem contar com a repressão policial, que é paga com dinheiro do contribuinte para reprimir quem atua contra o ganho de apenas um dono de camping, que por estranha coincidência é deputado local. Passei por campos pobres onde o uruguaio tem para comer basicamente o que planta, e pedalei pensando no que faltava para dar assistência a essa gente. Faltar, não falta nada, mas Punta del Leste me mostrou o que precisa ser dividido.

Em tempos cuja força de um político na mídia se mede basicamente pelo que é feito aos pobres, vejo que os maiores cânceres sociais são provocados curiosamente pelo que é feito aos ricos. Entre o “pão e circo” destinado aos pobres e o progresso excludente destinado aos ricos, me pergunto o que é mais corrosivo para uma sociedade e por qual dos dois eu deveria optar...

Não quero nem um nem outro. Aliás, quem foi que disse que preciso querer alguma dessas opções? Entre um tiro na mão ou no pé, ainda creio que posso optar simplesmente por não tomar o tal tiro.

 



Escrito por Ricardo Martins às 01h58
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Hospitalidade Uruguaia, uma vez mais

Começo a empreender a viagem de volta para Buenos Aires, com o detalhe de ter em meus bolsos apenas o equivalente a 70 centavos para completar os 450 km que me restam (o equivalente a distancia entre RJ e SP). Para isso, obviamente terei que abandonar o prosaico método da compra, mas fora isso não vejo grandes problemas para completar essa parte da aventura.

Já dizia o sábio Murphy que as coisas dão errado justo quando não podem dar. Devido a muitos dias de calor intenso na estrada, o pneu e a câmera da Capitu explodiram, sendo que eu não tinha grana pra consertar nem um nem outro, aliás eu não tinha grana para nada mais do que uns 4 pães. Caminhei algumas horas até o povoado mais próximo buscando um lugar pra consertar a roda da Capitu até que um jovem se ofereceu pra me acompanhar até a loja de bicicleta mais próxima. Chegando na loja, expliquei que estava a alguns dias viajando pelo Uruguai e que estava ao fim dessa parte da viagem, e que por isso eu já não tinha mais dinheiro para pagar nada (mentira, pois desde o começo da viagem no Brasil, há 1 ano e meio atrás, eu não tinha dinheiro pra nada). Num descontraído bate-papo, em que conversamos sobre minhas idas e vindas pelo Uruguai e pela América do sul, o dono da loja de bicicleta me disse:

- Relaxa que a gente dá um jeito, brasuco (é uma forma de se referir bem informalmente a um brasileiro). Você tá na mão de um uruguaio e ciclista, e em ambos os casos jamais deixamos na mão alguém que precisa de ajuda.

O cara tirou dos fundos da loja um pneu e uma câmera já usados e colocou na Capitu sem me cobrar nada. Os caras da loja eram da federação de ciclista do clube Peñarol (um dos times de futebol mais tradicionais do Uruguai), e em troca apenas pediram para que eu colocasse um adesivo deles na Capitu. Eu colocaria um adesivo deles até na minha testa se fosse necessário. Agradeci imensamente e segui viagem com minha roda nova, que não era tão nova assim mas que agüentaria pelo menos uns mil quilômetros mais.

Pela tarde parei pra encher as minhas garrafas de água numa casa na beira da estrada perto de Maldonado, quando fui agradavelmente recebido por uma numerosa família uruguaia. Enquanto eles colocavam água fresca com gelo (“ta muito quente lá fora, menino” dizia a mulher que enchia a garrafa), um deles me perguntou se eu queria comer com eles. CLARO, disse eu, já sem conseguir esconder a imensa fome que ocupava meu vazio estomago.

- Pois bem, agora você vai comer um legítimo macarrão caseiro uruguaio, que fizemos hoje de manhã e acabamos de cozinhar, sortudo!

Me serviram dois pratos cheios de talharim “Al pesto” e outro ao molho branco com champignon.  Conversamos animadamente por mais de uma hora sobre as divertidas histórias da numerosa família que me abrigava. Me despedi com

uma saudade antecipada, com a barriga cheia e a alma leve.

Em um mesmo dia fui salvo de interromper a viagem e de passar o dia com fome. Para isso não tive que pedir nada, apenas me preocupei em fazer amigos em cada lugar onde parei. Tenho medo de cair em repetição extrema ao relatar a hospitalidade uruguaia, porém isso é algo que ocorre diariamente em múltiplos pontos do país. Tenho apenas algumas poucas moedas em meu tradicional bolso vazio, porém ao meu lado tenho quase que um país inteiro disposto a me ajudar no que for preciso para que os meus dias no Uruguai sejam os melhores possíveis. Não, definitivamente não tenho medo por estar ao lado deles.

Família Uruguaia

 



Escrito por Ricardo Martins às 20h53
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Carlos, o apicultor comunista

Algumas vezes penso que o dia será como qualquer outro, com pedalada por todo o dia, culminando com a busca de um lugar tranqüilo pra descansar e seguir na manhã seguinte. Porém há pessoas, sempre elas, que transformam simples dias em intrínsecas memórias de viagem. Hoje conheci Carlos, o apicultor.

Carlos é responsável pelo centro meteorológico onde eu passei a noite. Com a já usual hospitalidade uruguaia, fui recebido com direito a comida, lugar pra um bom banho fresco e um cantinho pra armar minha barraquinha. Carlos me presenteou com muitas histórias sobre o povo Uruguaio e as causas pelas quais ele lutava.

Carlos, como ele mesmo diz, é “meteorologista por profissão, apicultor por robbie e comunista por paixão”. Me explicou como funcionam as abelhas e os políticos, as colméias e a sociedade uruguaia, com uma surpreendente simplicidade. Por todas suas pastas estavam adesivos comunistas, que segundo ele serviam para mostrar aos outros pelo que ele lutava. Segundo ele mesmo, “as abelhas cuidam juntas da colméia, cada qual com sua função mas em busca de um só objetivo, o que é perfeitamente comunista”. Escutei sobre as causas sobre as quais ele lutava com paixão curiosamente racional e intensa. Não concordo ou discordo com nada em lugar algum, o que faz de mim um ótimo ouvinte.

Carlos me presenteou com mel para que eu lembrasse de suas abelhas, e com conhecimento das lutas populares para que eu lembrasse do povo uruguaio. “O Uruguai é um dos poucos lugares cuja revolução chegará não por armas, mas por uma mudança gradual de mentalidade” . Segundo Carlos, estas palavras foram ditas por Che Guevara em Punta del Leste, o que faz um perfeito sentido na medida em que conheço na prática o que representa ser uruguaio.

Nunca cheguei a propor mudar o mundo sozinho, porém graças a pessoas como Carlos é que prego por todos os cantos que a revolução pessoal é perfeitamente possível, e depois quem sabe seremos capazes de uma mudança significativa na sociedade.

http://picasaweb.google.com/rodaamerica/Uruguai

 



Escrito por Ricardo Martins às 23h57
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Leões marinhos de Cabo Polónio

Numa praia perdida no leste Uruguaio, eis que encontrei uma colônia com mais de mil lobos marinhos. Tentei escrever e reescrever alguns textos para descrever o que senti e vi, até que percebi que neste caso um vídeo falaria por si só. Espero que curtam tanto quanto eu

 



Escrito por Ricardo Martins às 19h10
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Cabo Polónio

Águas verdes e limpas, dunas fantásticas que se movem e mudam a paisagem diariamente, mais de mil leões marinhos no mesmo lugar, gente humilde e amável, baleias e golfinhos na água... Se eu pudesse construir o meu paraíso, seguramente colocaria todos estes itens de Cabo Polónio (claro, misturando com as 100 virgens dos muçulmanos, uma quantidade infinita de açaí e uma máquina de sopa de ervilha. rs).

Nesse paradisíaco lugar – Cabo Polónio, não esse das virgens -  eu havia marcado de encontrar com um amigo italiano e Daniela (a paixão argentina, pra quem não se acostumou com o nome). Nadamos com golfinhos brincando ao nosso redor, surfamos (quer dizer, tentei mas não fiquei em pé na prancha), jogamos futebol com os pescadores, ficamos a centímetros de leões marinhos. Era acordar, aproveitar um dia perfeito, dormir imaginando o seguinte dia perfeito.

Nos juntamos com um casal de franceses numa casinha pra passar o natal. A argentina se encarregou do churrasco de ceia, os franceses fizeram o fondue e o italiano cuidou dos vinhos para a grande noite. Iluminados apenas com a luz da lareira, conversamos e comemos como se nos conhecêssemos desde pequenos. Uma magia especial recobre tudo o que é feito em Cabo Polónio.

Coloquei meu relógio para despertar cincos minutos antes de meia noite, quando saí com a Daniela e colocamos meu saco de dormir na beira da praia até dar meia noite. Quando chegou a hora, lembro de um céu estrelado como eu jamais havia visto, um sorriso lindo, um abraço apertado e votos de feliz natal sussurrados ao pé do ouvido. Até hoje meu relógio desperta 5 minutos antes da meia noite, pois entre Daniela e eu é a hora que temos pra recordar uma noite perfeita de natal. Nesse dia chorei emocionadamente, e agora diariamente tenho os 20 segundos do meu alarme pra lembrar com uma gostosa nostalgia do melhor natal da minha vida.

Leoes Marinhos de Cabo Polonio

Daniela



Escrito por Ricardo Martins às 08h16
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A praia inabitada, de tão difícil de chegada

Desde que saí de Buenos Aires, a única recomendação que eu tinha era conhecer a Cabo Polônio, uma paradisíaca praia perdida no leste uruguaio, um santuário ecológico cheio de leões marinhos, onde carro não passava. Ok, achei legal esse negócio de carro não passar, até descobrir o porquê disso.

O que acontece é que a praia fica há 15 quilômetros de dunas desde a estrada principal, por isso o trajeto pode ser feito somente por caminhonetes 4X4 cadastradas pelo governo Uruguaio. Por razões de preservação ambiental, qualquer pessoa que entra é cadastrada e recebe algumas recomendações. A melhor delas estava escrita numa plaquinha de madeira velha e é um clássico entre viajantes:

 “Não deixe nada, apenas pegadas. Não leve nada, apenas memórias. Seja bem-vindo ao lar de animais, pescadores e agora seu também.”

 Lendo ao aviso crescia minha ansiedade de chegar em Cabo Polônio, mesmo que ainda não me tivesse dado conta do que seria passar 15 km de dunas cruzadas somente em 4x4. Eu, com minha humilde tração 2X2 (duas pernas minhas e duas rodas da Capitu), demorei mais de 8 horas pra cruzar tudo. Eram dunas impedaláveis, por isso eu tive que carregar a Capitu nas costas. O que me deixava puto era que de 10 em 10 minutos passavam caminhonetes cheias de turistas que tiravam foto de mim enquanto eu caminhava gritando de dor, cheio de areia por todo o corpo e caindo a cada quilometro. Alguns até gritavam frases de apoio em inglês ou até jogavam uma garrafinha de água, mas no geral ficavam me sacaneando mesmo. Sempre fico puto com esses turistas de meia tigela, porem era mais importante seguir e completar meu objetivo, até porque escurecia e eu estava no meio do nada.

Enfim, passei. Doeu, mas passei. Cansou, mas passei. Achei que não daria, mas deu. Aliás, como sempre.



Escrito por Ricardo Martins às 02h05
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O "Seu Rodriguez"

Já de péssimo humor desde Canelones, preferi pedalar uns quilômetros mais para encontrar um povoado mais isolado. Pedalei até ver o ritmo do campo se aproximando, me indicando que era hora de parar, sabe-se lá onde. Meio que longe de tudo, numa casinha que parecia parar no tempo, conheci o simpático “Seu Rodriguez”.

Não tive que pedir um lugar para acampar nessa casa, apenas parei pra conversar e tudo meio que se acomodava como que coordenado por uma empatia mútua inexplicável. Ao final de umas 3 horas de conversa, caiu a noite e ele pediu pra eu ficar por ali. O Seu Rodriguez tem 82 anos e vive sozinho desde os 40, e nesse ínterim viveu e inventou muitas histórias sem ter para quem contar, talvez daí venha nossa inusitada empatia mútua, pois eu estava ávido por escutar suas histórias tanto quanto ele por contá-las.

As histórias do Seu Rodriguez tinham um ar de realismo fantástico do Garcia Marques, narradas em um tom quixotesco de um velhinho que repetiu suas fantasiosas histórias até o ponto de acreditar nelas. Num tom meio mágico e épico, escutei histórias de um menino que foi criado numa caixa de sapato e parou de crescer, fantasmas de velhos boiadeiros que assustavam o gado, mulheres que pariam 3 filhos por ano, lendas do povo uruguaio e incontáveis histórias que me comoviam pela simplicidade com que eram contadas. Precisaria escrever um blog aparte pra detalhar tudo o que escutei nessa longa noite, e sinceramente penso nessa possibilidade.

Embalados por vinho caseiro e um bom mate uruguaio, o papo foi alongando até vermos o sol despontando no horizonte. Numa cumplicidade mútua que não sei explicar, nos servimos de um copo mais de vinho e brindamos ao sol que nascia. O momento foi eterno, assim como suas histórias que agora serão passadas por mim.

Meio embriagado por contos e vinhos, deitei na minha barraca com uma estranha sensação de nostalgia de uma pessoa que eu havia conhecido há poucas horas atrás. Com uma imensa paz que me invadia o peito, ecoava por meus ouvidos a voz quixotesca do seu Rodriguez, enquanto meus olhos viam gaivotas que dançavam sobre as nuvens e meu olfato era inundado por um cheiro de terra molhada que anunciava a chuva que estava por vir. O sono vinha e eu não queria me arriscar a dormir e perder aquele momento.

Nesses momentos me dou conta do quanto é difícil passar o que vivo viajando por esse mundão. Não há foto que mostre bem o arco-íris agora que me cobre, não consigo registrar esse cheiro de mato e chuva, nenhuma palavra parece suficiente para explicar a felicidade que me invade sem muita explicação. Aliás, minha vida ganha mais sentido na medida em que vou perdendo as explicações para as coisas.

 

Seu Rodriguez



Escrito por Ricardo Martins às 01h37
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Canelones, Uruguay - Essa tal vida moderna...

Devido ao último dia cansativo que tive, pedalei somente 50 km pra poder descansar em alguma pacata cidade por aí. Assim cheguei a Canelones, uma cidade que fica a 50 quilômetros da capital do país, e que por isso sofre dos tradicionais males causados pela suposta civilização.

Como quem tristemente diagnosticava um câncer social, sentia meus ouvidos enlouquecendo paulatinamente com buzinas e gritos, enquanto meus olhos decepcionadamente viam os campos verdes sendo aos poucos trocados por uma massa disforme e depressiva de concreto e demais coisas de cor cinza. Observava pessoas apressadas que corriam tanto sem bem saber por que o faziam, lixo por todo lado, propagandas tornando imprescindíveis coisas inúteis e etc. Aliando toda essa sinestesia e mais uma espécie de sensação coletiva de perigo iminente, como se houvesse um serial Killer em cada esquina, penso que não precisaria de mais sintomas para descrever o que chamo de câncer social. “Sim, nesse mundo tem muita gente má”, escutei uma mulher dizendo à vizinha enquanto trancava sua porta com 3 chaves diferentes.

Meio atordoado, segui andando até tomar coragem pra fazer a primeira parada em Canelones com a Capitu. Logo veio um menino com seus nove anos pedindo pra cuidar da bicicleta em troca de algumas moedas. Puxa, sei que parece normal para muitos, mas no meu caso fiquei chocado em ter que pagar simplesmente para ter comigo o que já é meu. No Uruguai eu havia conhecido várias outras cidades mais caipiras e pouco evoluídas, em que as pessoas viviam de forma muito retrógrada, deixando a porta de casa aberta ou o carro com a chave na ignição sem que alguém os roube. Pois bem, paguei a tal moeda e entrei num bar para lavar meu rosto meio sujo de graxa.

 

- Che, posso usar o banheiro um momento, por favor? – Perguntei ao dono do bar

- Olha, aqui não tem banheiro não, meu jovem...

 

Vendo ao fundo uma placa que dizia “banheiro”, segui perguntando.

 

- Mas aquilo ali num é um banheiro?

- É sim, mas ta trancado.

 

Claro que percebi a má vontade do impassível dono do bar, mas queria ver até onde aquilo iria e resolvi seguir perguntando:

- Ah, entendo, obrigado. Mas o senhor não tem a chave pra abrir?`

- Tenho, mas é só pra clientes!  - Respondia o já não tão impassível senhor.

 

Pensando no quanto parece ser cruel e prejudicial a um negócio lavar o rosto em um banheiro, me despedi do simpático senhor com um cordial “Tenha um bom dia”. Peguei e Capitu e segui andando. Encontrei jovens que conversavam excitadamente sobre o último celular anunciado num outdoor, vi pais almoçando olhando à TV enquanto ignoravam os próprios filhos que em vão tentavam dizer como lhes havia sido o dia na escola, vi velhinhos que jogavam pão aos pombos enquanto ao lado alguém pedia comida. Sim, de fato parece cruel ver cenas assim, porém mais cruel ainda é saber que as coisas não são lá tão diferentes em qualquer cidade clássica assolada pela tal modernidade. Mais do que isso, cruel é perceber que muitas vezes fazemos o mesmo e não nos damos conta. Meu maior bem adquirido foi o resgate da crença na raça humana, por isso ainda me recuso a crer que as coisas precisam de fato ser assim. Aliás, já há muito tempo constatamos que o ser humano não está fadado a ser fruto do meio, então não sei por que raios agimos como se não houvesse escolha pra tudo isso.

 

Nessa ótica em que o normal ao meio é sempre correto ou aceitável, qualquer coisa descabida ganha o respaldo social que a torna legítima. Pensemos no quanto aceitamos fome, poluição, corrupção e por aí vai. Ok, se de fato tudo isso for aceitável, não faz sentido apontar o dedo sujo aos que apedrejam em praça pública a mulher infiel, mutilam clitóris por aí ou demais anormalidades desses seres humanos de hábitos pouco aceitáveis. Sendo assim, não deixemos muito longe esse apedrejador e mutilador dos que aceitam o engravatadinho que “Rouba mas faz”, pois parece que atualmente o martelo que define o certo e o errado é simplesmente o que a maioria faz.

Me parece  que os moldes da sociedade global apontam para que cada um olhe somente a si mesmo, deixando a vida carente de alguém que olhe por nós. Bingo.  Aí entra Deus, olhando por nós enquanto fazemos exatamente o mesmo.



Escrito por Ricardo Martins às 19h01
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Extremos da estrada

O dia foi de pedalada muito complicada. Além do já normal sobe desce na estrada, o vento forte me castigava de tão forte e frio que estava, cortando-me com a poeira forte que batia sobre meu rosto sujo. Pra deixar as coisas mais emocionantes ainda, o pneu da Capitu furou de forma bem difícil de consertar. Pois é, há dias em que tudo tem que dar errado, e pra dizer a verdade eu gosto disso e acho que é o que dá um gostinho especial à aventura.  Ok, penso nisso quando o perrengue passa, não vou mentir...

 

Uma troca de câmara de ar normalmente é algo muito fácil de ser feito, mas dessa vez o pneu furou na única parte onde o remendo é quase impossível. Pra completar a bossa, descobri que a bomba de ar estava quebrada. Faltavam-me 53 quilômetros pra chegar à próxima cidade, sendo que parte do trecho teria que ser feito caminhando, pelo menos até achar alguém que me possa ajudar a trocar o pneu da Capitu, pobrezinha. Depois de 2 horas caminhando, encontrei um casal de velhinhos que me presenteou com uma câmara nova, assim que agradeci e me aprontei pra seguir o caminho, mesmo sabendo que já quase escurecia e me faltava um pouquinho de estrada até a próxima parada. Sim, sei que isso poderia ter sido evitado se eu tivesse uma câmara de ar reserva,  porém obviamente esqueço de tudo, e pra completar aprendi a curtir os imprevistos causados por meus próprios deslizes. (Crianças, não tentem isso em casa! Sou um idiota, que fique bem claro.)

 

O vento estava ficando cada vez mais forte, na mesma proporção em que aumentava meu cansaço físico e psicológico. Enquanto eu tentava vencer o vento, gritava bem forte de raiva e de dor enquanto os músculos da minha perna adormeciam paulatinamente. A noite caía, eu já não sentia mais a batata da perna, fazia frio, minha água havia acabado, mas enfim, faltava pouco pra chegar até a próxima cidade e descansar tranqüilo. Como resultado de minha teimosia, lá pelas 10 da noite cheguei ao povoado de São José, onde comecei desesperadamente a buscar algum lugar pra dormir por umas quantas horas.

 

Já caminhando torto e vendo tudo meio embaçado devido ao cansaço extremo, fui pedir água para uma família que conversava no quintal de uma casa. Ficamos um tempo conversando e nos demos muito bem, até que a mãe da família foi me oferecendo comida de tudo quanto é tipo e de quebra um lugar tranqüilo pra armar a barraca. Puxa, que gente amável... Comi uma macarronada caseira, tomei banho e fui dormir, pois meu estado físico deplorável não me permitia outra coisa, mas no dia seguinte pretendia passar mais tempo com meus novos amigos uruguaios.  No dia seguinte, acordei com café da manhã, estoque de água congelada pra levar no caminho e um montão de gente querendo escutar as minhas histórias. Puxa, jamais me pedem nada em troca pela tantas coisas que recebo, somente histórias, amizade e respeito, nada mais. Pode parecer piegas, mas uma lágrima furtiva e incontida acaba de manchar esta página de meu diário de bordo... Puxa, com o passar do tempo vou construindo e fortificando meu orguho pela raça humana.

 

Conheci essa gente há não mais do que 12 horas, mas é incrível como agora cada uma das faces que vejo me parece familiar. Pensando agora sobre essa gente que conheci, reflito sobre os chatos que ficam me perguntando se quero fazer história através do que vivo nessa viagem. Não viajo para fazer história, mas sim para fazer amigos.



Escrito por Ricardo Martins às 04h47
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O uruguaio e o mate

Antes de tudo, preciso explicar que o “mate”, relatado nos trechos sobre a Argentina e o Uruguai, seria equivalente ao “chimarrão” para nós brasileiros. Eu, como um bom carioca, lembro logo de um bom “Mate Leão” gelado na praia ao escutar sobre mate, por isso achei que valeria a pena diferenciar as coisas.

 

Acho que dizer “Uruguaio tomando mate” é uma espécie de pleonasmo, tipo “Subir pra cima” e etc. Para evitar que eu caia em repetição excessiva, saibam que o “tomar mate” já está implícito em qualquer ação do Uruguaio, salvo raras exceções que devem existir e eu ainda não vi. Em todas as fotos que tiro por aqui, vocês sempre verão debaixo do braço das pessoas uma garrafa térmica e “el mate” (o copo onde se põe a erva) na mão. E assim normalmente caminha o uruguaio em qualquer situação cotidiana: Com uma das mãos sempre ocupada enquanto fazem qualquer coisa.

 

Nada de aguinha de côco ou cerveja gelada enquanto eles estão na praia. No Uruguai se toma mate quente na areia, faça o sol que fizer, inclusive as barraquinhas de côco gelado são substituídas pelas de água quente pra usar no mate. Os casais andam de mãos dadas e ocupam o outro braço com o mate, inclusive conseguem a façanha de servir com uma só mão o mate desde a garrafa que fica debaixo do braço até o copo que fica na mesma mão.  Existe oportunidade pra tomar mate sozinho, entre amigos, pra fazer a digestão, antes de dormir, ao acordar, porque faz frio, porque faz calor. Enfim, pra tudo, mas tudo MESMO. Mais do que pela bebida, beber mate é um estilo de vida para o Uruguaio.

 

Eu mesmo nunca fui de tomar qualquer bebida quente, mas agora entrei no costume também. Descobri que o sabor da bebida é o que menos importa, pois o importante mesmo é a “desculpa pra reunir as pessoas”, ou simplesmente o fato de se sentir genuinamente uruguaio. 

 

Observação: Escrevo este texto enquanto tomo mate, ao lado de “uruguaios tomando mate”, se me permitem um último pleonasmo.

Tomando mate



Escrito por Ricardo Martins às 04h23
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Uruguai - Primeiros amigos e impressões

Nos planos iniciais eu pretendia parar num povoado que ficava a 80 km de distância da fronteira com a Argentina. Apenas com 30 km caminhados, me deparei com uma simpática e pacata cidade chamada Mercedez. Sobre o lindo e fresco Rio Negro, vi pessoas caminhando tranquilas e me cumprimentando, meninos jogando bola pelas calçadas. Mais do que a distância pedalada, me importa uma espécie de energia que os lugares emanam sem que muitos percebam, assim que fui estacionando minha fiel escudeira e buscando um lugar pra acampar.

 

Rodei uns 15 minutos ou menos até me deparar com uma empresa de sementes à beira do rio, cujos donos estavam entretidos adubando um futuro campo de futebol para os funcionários. Gostei da cidade, gostei da atitude humana dos donos, logo parei pra bater um papo. Agora nessa história pela América Latina entra o primeiro personagem uruguaio: Augustín, um pacato e simpático novo amigo, exatamente como sua cidade e seu país haviam sido comigo neste primeiro dia em novas terras.

 

Contei minhas histórias, ele contou as dele, ambos nos impressionamos mutuamente. Ao fim de um longo papo comentei que Mercedez era a primeira cidade onde eu parava no Uruguai, e que ele era o primeiro no país com quem eu parava pra conversar. Após isso, Augustín deu um salto ligeiro, quase involuntário, e me disse com muito entusiasmo: “Agora você vai entender porquê nós no Uruguai somos tão amáveis e nos orgulhamos tanto do nosso país, mesmo que alguns façam o contrário. Vou ser seu guia e amigo enquanto você estiver na minha cidade”.

 

O país já me ganhou. Me apaixonei pelo Uruguai, como se meu mundo agora se extendesse a esta nova casa pelos pampas.

 

Augustín pegou seu carro, chamou sua esposa por telefone e fomos os três pelos principais pontos turísticos da cidade. Me mostraram castelos perdidos, ilhas pequenas, lugares de personagens lendários uruguaios e muitas outras coisas. Enquanto isso, ambos me contavam histórias do povo uruguaio. Ao fim do dia Augustín me disse: “Che, você não pode chegar no Uruguai sem comer un buen asado!” (como chamam o churrasco típico aqui e na Argentina). Con más hambre que el Chavo (com mais fome do que o Chaves, como dizem por aqui ao morto de fome), aceitei imediatamente o convite e me fartei com um magnifico banquete que me ofereceram, com direito a muitos tipos de carne, sobremesas e histórias que agora marcam minha memória definitivamente. Sinto como se fosse possível escrever um livro somente com as histórias que me contam enquanto eu vivo as minhas.

Terminamos e eles me levaram até a minha barraca, perguntando cheio de cuidados se faltou algo pra que eu desrutasse mais da cidade e da companhia deles. Agradeci emocionadamente e fui dormir. No dia  seguinte, acordei e tomei café com Augustín e os empregados da empresa, numa mesa redonda em que não se distinguia o dono do gerente ou o faxineiro, ou até do inusitado pedaleiro que os observava ávidamente. Todos me deram um monte de água gelada pra beber durante o dia (lembrando que água gelada é o grande artigo de luxo de quem pedala o dia inteiro no sol e sem dinheiro). Minha vontade, guiada cada vez mais por um coração mole que não tem mais remédio, pedia para que eu ficasse por Mercedez, mas minha curiosidade em conhecer os novos caminhos e as novas pessoas pelo Uruguai dessa vez venceu a batalha. Pé na estrada, hermanos..

Quanto mais países conheço com minha fiel Capitu, mais vejo que o compay Guevara estava certo ao dizer que somos “uma só raça mestiça desde o México até o estreito de Magalhães”. Me arrisco em dizer que somos uma só raça humana desde qualquer lugar até qualquer lugar, uma vez que não posso tomar como ponto de partida um mundo que sabidamente é redondo. Com o tempo, as pessoas pelo mundo me parecem curiosamente muito iguais e diferentes entre si, uma vez que sempre haverão divergências e coisas que nos unen. O que faço, graças ao que as pessoas têm feito por mim, é me preocupar com as muitas coisas que nos unem.

Veremos o que me espera nas novas terras uruguaias. Melhor primeira impressão impossível.

Agustín, o primeiro amigo uruguaio

Augustín

 



Escrito por Ricardo Martins às 02h27
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A ponte proibida

Acampei num posto policial perto da estrada, num lugar onde descansavam cavalos e cachorros. Os policiais foram muito hospitaleiros e amáveis todo o tempo, me oferecendo a cada 5 minutos mate ou algo de comer. Já com as energias recarregadas, segui para cruzar os últimos poucos quilômetros que me separavam do Uruguai.

Os policiais me disseram que a ponte entre a Argentina e o Uruguai está fechada há mais de 2 anos, sendo que a fronteira mais próxima ficaria há uns 180 quilômetros mais. A briga que fechou a fronteira foi originada quando uma fábrica de papeis européia decidiu instalar-se na beira do rio que separa os dois países, no lado Uruguaio. A Argentina, que mesmo baixo protesto possui papeleiras que sujam seus próprios rios e o próprio Uruguai, imaginou que um tratado entre os dois países  teria mais peso do que o dinheiro num sistema capitalista - que não por concidência começa com a palavra "capital". No outro lado da ponte, os Uruguaios aparentemente pensavam que era questão de soberania nacional deixar uma empresa estrangeira instalar-se em seu próprio território, sujando suas águas e deixando um lucro que sequer pagaria os danos causados ao meio ambiente. Conclusão: Perdeu a Argentina, perdeu o Uruguai, ganhou uma pobre multinacional do pobre continente europeu. E no meio disso tudo entraria um magrelo de bicicleta, tentando explicar que não tinha nada a ver com a briga alheia.

Esperando ter que dialogar com policias armados, parti eu com minha fiel escudeira. A violenta e hostil barreira era ocupada por dois velhinhos simpáticos que tomavam mate numa cadeira de balanço. Descobri que eles queriam mais do que tudo apenas serem escutados, então me sentei com eles pra tomar um bom mate e ouvir o que motivou aqueles anos de briga entre os dois países. O último que conseguiu cruzar essa ponte teve que fazer uso de liminares judiciais e quase foi linchado, mas ao invés disso simplesmente parei pra descobrir mais a fundo o que motivava tudo aquilo. Não concordei ou discordei, apenas respeitei a opinião de quem dava a vida por uma causa na qual acreditava.

Passei pela temida ponte, encontrando em seguida uma cidade fantasma, com um posto de imigração que já há muito tempo não via pessoas chegando. Ninguém acreditava que eu tinha passado. Eu teria que pagar uma multa por exceder os 90 dias na Argentina, porém minha fama instantânea foi utilizada para facilmente passar sem encargos adicionais. Pensaram que eu era um cara valente, coitados. Acho que valentes todos antes tentaram ser, por isso a grande novidade praticada por mim foi ser um pouco mais humano. Acho que descubro na prática o sonho perdido do dia em que o diálogo substituiria a guerra - não é tão difícil assim.

 Video: Cruzando a ponte proibida

Cruzando a ponte proibida



Escrito por Ricardo Martins às 18h04
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Os mosquitos ninja

Argentina - Entre rios, Ceibas.

A maior aventura do dia não foi exatamente digna de contos épicos, risco de vida ou experiências extremas, como todo mundo espera que seja na minha viagem. O grande momento do dia foi minha homérica batalha com 5 mosquitos que entraram na barraca pela noite. Na verdade eu acho que se tratava de 1 mosquito, com habilidades especiais de regeneração e multiplicação, mas enfim. 

Eu diria que essa região da Argentina desenvolveu uma raça de mosquitos ninja, que aparentemente me atacavam com táticas militares inspiradas na guerrilha colombiana - vejam só o que é a globalização. Os mosquitos filhos da p*, com todo respeito à dona mosquita, se aproveitaram militarmente da noite, pois eu conseguia vê-los somente de relance com a lanterna, e com isso eles foram fazendo banquete de Ricardo. Como eu os via somente por um instante com a lanterna - quando os via - era difícil  de dar um tapa nos bichos, e nisso perdi mais de 1 hora frustradamente tentando matar meus oponentes. 1 X 0 para os mosquitos, o time visitante. 

Sentindo minha desvantagem em combate, resolvi utilizar minha vantagem intelectual, que por mais básica que fosse tinha a possibilidade de superar a de alguns mosquitos. Tirei da mochila meu desodorante aerosol, imaginando que o álcool os mataria ou os deixariam desacordados para o golpe final. Atingia os mosquitos e eles continuavam voando, até que meu desodorante quase acabou e eu já estava sufocado dentro da barraca enquanto eles seguiam voando. Saí da barraca, eles continuavam lá dentro. 2 X 0 para os mosquitos. Me ganharam até intelectualmente, que humilhação...

 Entre humilhado e humilhado e meio a diferença é muito pouca, então adotei a tática de "pensar como o meu oponente", mesmo que ele seja um mosquito. Imaginei que os bichos uma hora se cansariam de voar e precisariam descansar em algum lugar, talvez nas paredes da barraca. Bingo!! Passei a iluminar com a lanterna somente as paredes da barraca, onde eles ficavam parados tempo suficiente para que eu disparasse meu mega golpe mortal - ok, um tapinha bastava, mas era questão de honra uma morte mais dolorosa aos meus adversários alados. Usando de minha tardia vantagem intelectual consegui matar a todos os 5 mosquitos ninja! 5 X 2 pro time da casa. Vitória esmagadora, literalmente.

 Acho que ao viajar sozinho acabei desenvolvendo a estranha e aparentemente inútil habilidade de me divertir com absolutamente qualquer coisa...



Escrito por Ricardo Martins às 21h34
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